8.4.17

'Bem'droega

8.4.17
© samara bassi

Dormiu na presença estranha dessas lembranças pueris, perdidas nas montanhas do seu berço de ontem. 
Desceu rápido tuas escadarias avulsas com vento nos pés e rodopiou tuas risadas leves e breves de um tempo grato e doce. Um tempo confeiteiro e peralta que me tráz avisos de boas vindas, de boa vida e de bons lugares... desses lugares tantos que só enraízam por dentro e acontecem sempre sem desvios. Por perto, há espaços que vingam qualquer chegada e coincidem na luz dos dias mais equinócicos. Das noites mais alinhadas com as estrelas mais avantajadas. 
Sabia perder o rumo por entre as ervas aparentemente daninhas, vestidas de bolinhas azedas e coloridas de Beldroegas. 


[beldroegas - dessas que nascem nos quintais mais felizes.]


Nas auras mais preenchidas de risos largos, de pé no chão e cor-de-todo-dia... que todo menino e menina conhece na palma da mão. Ou que já estouraram as cores no paladar mais próprio do não esquecimento.
Um tempo onírico de crenças que não tinham paredes, que não morriam na chuva, que não se fartavam de dores porque dores, não se criavam ali.


E eu, eu á te disse, menina,  que teu espaço é um vento azul que te visita as bordas do seu vestido nunca usado, só guardado na mala.
Das verdes esperas, o teu lar é um olho esperto que olha o dentro que ninguém entende.

— Lembra que ante-ontem, eu ainda havia dito que toda semente é uma lampejo pronto pra vingar?

Que tuas araras são as pipas livres de todos os pesos que sobravam nos calçados. Na sola dos pés descansados da corrida no capim, tuas flores surgiam afoitas todas assim, mordidas por debaixo da unha.
Já disse que essa tua terra é um espaço honroso desses tantos quintais que te moram e te demoram sem amarelar. Te acompanha teus campados férteis de ontem e amanhãs com risos que te cumprimentam o coração. E, dessas validades sem volta e sem revoltas, é que se estendem como lençóis vastos de tantas historias, os teus passos mais compridos de sonhos.
Acenda teus olhos de ontem e ache a saída!

— Tem pirilampos no pote, lembra?

Tem bolinhas rosas e vermelhas, amarelas e laranjas que já nasceram e também deixaram tuas raízes pelos corredores úmidos de chuva farta, de umidade de casa bem regada, de vida e de lembrança que germinam até hoje esse punhadinho de cor, de coração bem ventilado. De colorido minúsculo.

Esmagou nos dedos um sorriso pequenino tanto quanto o teu tamanho, e saiu em disparada com mais presenças amigas e irmãs. Sabia nunca estar só. Só, era o pó que deixava pra trás descendo o morro, atrás de todo instrumento solar.
Tua aura é lar. Meu lar de todos os tempos. É meu vento brando de bonitezas e bem dizeres que clareiam.


[me parece fábula doida essa menina, mas ela é mesmo um resquício de todo melhor que se pode guardar de si mesmo. Me ensina a não desgrudar o foco daquilo que mais faz feliz.]


E felicidade, meu bem, eu digo mais: é qualquer punhadinho de brilho que se pretende criar.
Um punhado de sol que se guarda nos bolsos, um calor estourando os miolos e a cor de terra das últimas vidas tão bem acalentadas... por todas as próximas.

Soube aprender ainda, e a ensinar também, que felicidade é festa que se faz (por) bem.

E que em qualquer dúvida, me mostrou ainda:

— Confetes de beldroega?
— Bem...droega, menina, BEMdroega!

É por bem que se (es)colhe a cor, viu?!


│Samara Bassi│


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