11.2.14

De um improviso ensaiado sobre as esperas

11.2.14
Weheartit
Me aconteceu que, sentada em um banco de praça, dessas sem graça mesmo de cidadezinha esburacada, eu me dei conta de que também já esperei demais tanto quanto já desesperei. Não como ele lá, ou aquela ali, mas tanto quanto você. E o que eu sei sobre as esperas?
Espera!

 [pausa pra um pio órfão assim, na beira do lago... ops, minto! eu esperei te impressionar. é poça d'água mesmo]

Passo o velho, passa a criança, passo o cachorro e o que passa? Sei lá! 
Essas coisas são muito elaboradas pra quem não compreende tantos relógios adiantados, tantos passos apressados demais. Tantos corações afastados, tantos cordões cortados, tanta gente sem passo firme. Tanta espera. E no fundo ainda insisto em dizer que esperei demais. Esperei você vir me ler, você me entender. Esperei.
Se berrei com machucado no joelho, o remédio teve tempo demais. Se chorei, eu esperei que passasse logo. Se sorri, que não passasse nunca. Esperei as provas na faculdade, enquanto provava outras da vida.
Esperei o tempo de deixar de ser café-com-leite nas brincadeiras mais "perigosas". Mas perigosas mesmo, foram as desesperanças que não brotaram no novo e que nos fizeram sérios demais.
Ahhh, eu esperei o sinal da tim enquanto o meu sim já havia alcançado todas as suas palavras. Esperei madrugada pra te telefonar num enrosco e te trazer aqui. E como!

[te espero.]

Esperei teu ônibus chegar e a fila do pastel. Esperei meu verso florir e criar raízes pra prosseguir.
Esperei o tempo, mas ele não espera. Nem me desespera mais.
Esperei na curva do meu riso, uma chuva molhar todas as sementes que me germinaram um peito repleto de amanhãs. Um encontro, um amor. 

Esperei criança e um punhado de lápis de cor. 

Esperei meus anos chegarem, um por um até chegar você. E me fazer querer todos os outros até o fim, esperando sua volta pra casa todo fim de tarde. Esperei como quem colhe maçãs em época rigorosa. Como quem semeia jardins fora de época. Esperei sem pressa, um passo depois do outro naquela estradinha sem fim, estrelas no seu olho-cor-de-mar. Te constelei sem pressa. Te esperei à beça. Eu já te esperava sem saber.

Então que a gente espera a vida acabar, acreditando que ela nunca vai chegar ao fim. Os filhos da gente ficarem, como se fossem bibelôs na estante. A gente se desespera num instante sem pensar.
A gente vira o mundo de ponta cabeça e se desacontece o riso se, por um acaso, os livros tiverem sido mexidos.
A gente atravessa a rua olhando pros lados e esquece do alto. A gente dá um salto no escuro, esperando apoio.
A gente se entope de pizza fria, esperando algo ou alguém que nos aqueça por dentro e que não ria, das nossas friezas sem querer. Das nossas temperanças sem calendário.

[espere! espero]

Espero você terminar sua leitura pra me contar tuas esperas, com outras palavras. Com a mesma esperança.
Enquanto você me espera na feira, eu te espero na beira do morro onde moro. Lá, eu sempre esperei nossas distâncias morrerem.
Das esperas que nos seguem pelas ruas, todas são cabíveis de uma tal esperança.
E já te falei: a ESPERAnça vem mesmo do verbo esperar!

[mas sem desespero]

Te espero com flores, ele com cores, ela odores, você com sabores. Esperamos todos uma mesma canção que não nos apresse.
E apesar de tantas desesperanças passadas, eu ainda espero. E quero hoje, mais do que ontem, não desesperar demais.
E quanto a você por aqui, te espero voltar
│Samara Bassi│
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