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Olho com carinho a criança da minha vida. E com ela, levo um punhado bonito dessa saudade poética, também.
E ela, ela nunca vem só: vem acompanhada dos cheiros de grama recém cortada e rastelada pra forrar os vasos e forrar a cama onde aquele cachorro folgado deitava pra tomar sol.
A casinha de madeira e todos os brinquedos que o vovô construía. As brincadeiras com as amigas nas árvores, as aulas pras bonecas e pro mesmo cachorro folgado e confesso: tão amado Totó. Os banhos de mangueira e aquela piscininha adorável feita de uma caixa térmica de isopor, quando não era no tanque. Os esconde-escondes, as caminhadas de horas em terra batida com os vizinhos pra tomar banho de cachoeira numa biquinha da cidade e as brincadeiras de corda que faziam à minha criança, um bem danado à sua rotina. De deitar nas calçadas com um binóculos voltado para as estrelas. Das experiências malucas com os ingredientes da cozinha da mamãe. E até de uma possível explicação por eu ser tão avoada assim: de já ter almejado na primeira série, o cargo de algum astronauta.
Nos parquinhos ao ar livre, já se aprontava pra fazer arte, se pendurar nos ferros e virar de ponta cabeça.
As festas juninas, os dias sem festa, o cheiro de giz de cera, do guache e dos piqueniques no quintal com os primos.
É, a vinda da minha criança sempre me devolve a beleza dos quintais. Sim, porque até mesmo quem nunca teve um quintal, sabe a magia que eles abrigam e ensinam, muito, muito mais e até aquilo que não se aprende na escola e nem nos livros. Sem dúvida, uma cartilha sobre a construção da amorosidade. Do amor que cada animal que eu tive me doou e que o meu, aceitou.
E, mesmo que você não tenha tido um quintal, sabe ao menos por intuição que no quintal do vizinho, do amiguinho onde você costumava ir brincar, morava um certo paraíso. E por intuição de criança, talvez, a gente era sempre mais amiga dos anjos.
Em terra florida e com pé no chão é que a vida corria solta, como quem corre atrás dos passarinhos e topa com o dedão na pedra. Que disfarça numa gargalhada pra depois soltar o choro sem mais freio algum. A queda da árvore enquanto dormia e os ensaios de voos na balança daquela goiabeira amarela que pra minha criança, ainda não há de ter no mundo, castelo igual.
Até que chega um momento em que a vida cresce e com ela, aparece um bocado de coisa que nos tira o riso e outras... que nos devolve.
Sei lá, talvez não se tenha receita, nem fórmula para aprender e ensinar aos mais jovens como serem jovens por mais tempo.
Só sei que a minha criança vive rodeada por um punhado de risos da sua época e me chama pra brincar vez ou outra, naquele lugar secreto e bem colorido - o meu paraíso particular e que hoje é mais que um lar dentro de mim, é o meu melhor abrigo.
O meu Reino, até.
│Samara Bassi│
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