3.11.12

A grandeza de coisa miúda

3.11.12
Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa.
- Guimarães Rosa -


Imagem: Samara Bassi
Fechou os olhos pra sentir. Havia um cofre guardando tesouros que os dias não alcançavam mais, no mesmo tempo em que garimpava tuas dores floridas num corpo novo e translúcido de desacontecer manhãs. Ah essa mania desaforada de sempre trançar as pernas enquanto abre as asas carregando as distâncias em cada curva do vento que, de tão conversadeiro, fez hora debruçando na nuvem despenteada.
Brotou teu perfume brando como floreira que acorda as janelas, saracutiando dedinhos solares pra se adentrar nos olhos sonolentos daquele serzinho tão leve quanto um breve voo de dente de leão. 

- Seu Passarinho, um coração nunca é terra de ninguém, não, meu senhor. Mas guarde segredo!

Sabia que era casa bem bonita, mesmo empoeirada e sem canteiros viçosos. Foi por isso que saía em disparada toda tarde pra compor teu berço de germinar alegrias que teu quintal, terra de muito bicho,  nunca soube dispensar.
Ali moço,  naquele canto, tem um lugar maduro pra virar semente. Tem sim um "assim meio quê" de paladar da vida escorrendo pelo canto da boca e lambuza de dedos decorados com fitas de cetim. 
Mas tenho cá para mim que essa coisa de fazer graça toda vez que ela passa descalça, é um jeito descabidamente colorido de desenrolar algodão doce dos galhos pra brincar de nuvem, pra fazer pirraça por baixo da saia, debaixo das asas que nem acordaram ainda. E de peito que ainda nem se encheu de ar pra cantar de brincadeira, a tua pequenez rica de ser grande aos olhos hábeis, sem grades e  sem portões. É verdade meu senhor, um dia alguém aprende: 

- Passarinheiro, passarinho não deve nunca ser (terra de um) só.

│Samara Bassi│
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