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| Imagem: Sean Justice |
Em dias assim, eu fecho o corpo e guardo alguma brisa daquela cidadezinha pacata num pote de vidro, pra quando for preciso respirar uma maresia qualquer. É que entre eu e os meus alguéns, só encontro aquela luta branca e corriqueira como quem discute na fila do supermercado suas berinjelâncias e abobrinhas. Mas não tem nada não, sabe?
Você precisa é de um pouco de paz nessa tua cabeça que perambula pelas noites e se esquiva do mundo como quem deve uma fortuna e eu, eu já te disse por diversas vezes que gosto tanto dessa sua bicicleta azul.
Lembre-se disso toda vez que o peito tropeçar n'alguma arritmia e os pulmões suplicarem afoitos, por falta de ar no quarto da sua pensão, que já valerá à pena, mesmo que seja pelos sorrisos que ainda estarão por vir.
E não é que eu não goste da sua teimosia insistente e ainda assim, tão incontestavelmente charmosa, e que me faz querer pelo número de vezes que já perdi a conta, o cheque-mate certo em querer passar o começo (sim, começo) da minha vida ao teu lado. É que o teu inverso, ainda que rústico e silencioso em alguns momentos, me complementa de qualquer jeito. E não há ninguém que dê jeito nisso.
É da natureza, é assim que acontece. É assim também que se guarda corações expostos nas suas caixas torácicas e um cofre trancado à senhas em meio o mediastino. Todo mundo é assim num dia, ou no outro - um nó atado pra dentro e que não se desvencilha apenas com os dedos. É preciso algo à mais, talvez uma caneta Bic e por favor, de tinta cor azul. Chega de vermelhos riscados por aí. As escolhas não são reprovações escolares. Aqui não, nessas histórias.
Dos teus segredos, eu sei de todos. Você mesmo me conta sem nem se dar conta disso, ou deles. Como também sei que as minhas mãos são as pontes que buscam um lugar mais calmo por dentro desse seu peito tão afogado de "(m)águas" e chateações desse lugar tão afastado dos meus olhos.
Mas eu disse: d.o.s m.e.u.s. o.l.h.o.s.. Entendeu bem?
Você bem sabe, melhor do que eu que as esperas fazem parte das estradas, das viagens, não importando os destinos e esquece agora todas essas palavras lançadas e cuspidas como quem tem um fio de cabelo na garganta, como eu. Fecha os olhos e respira. Não importa se tem ou não um pote de vidro empoeirado e esquecido na sua estante, que nem é sua. Eu te empresto o meu, aliás, eu te empresto todos os meus ares. Eu te inspiro por nós dois, eu te respiro como quem deita uma prece por entre o vão das mãos e mais ainda, eu te dou todos os meus pincéis pra quando o sol e alguma cor faltar aí, nesse fim ou começo de mundo, seja lá qual for a primitividade bonita desse lugar. Eu sei que nenhuma aquarela é confiável à semelhança desse teu marrom de entardecer os olhos, mas eu te empresto ainda, o amarelo do meu sorriso em tardes de outono e céu azul sem nuvem, nem pedras rolando sob os pés, que é pra não desviar da sorte.
Então, vê se dorme tranquilo hoje, amanhã e depois. Deixa os dias seguirem e as dores das faltas se suprirem de amor, daquele amor farto e emoldurado que te embalou a infância. Que te acompanhou na escola, que te fez o bolo recheado mais doce que qualquer gostosura da vida. Eu sei, meu bem, que as dificuldades são tantas e as dores são muitas e muitas. Que as escolhas são amplas e complexas e que sobram angústias no fim do dia. E continua, sabendo que em qualquer lugar desse mundo imensamente pequeno, não é preciso ter pressa, nem desespero.
Há sempre de se ter alguém ancorado na sua espera(nça).
Disso, eu sei. Você sabe.
