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3.12.14

O substrato do abstrato

3.12.14
tumblr
Sob meus pés, caminhos passados como bilhetes e portas trancadas às minhas vistas. Deixo um bom dia para esbarrar nas nuvens, o meu pedaço de céu.
Quem não tem seus lugares guardados, sem desaguar marés?
Há uma fresta para cada olhar ver apenas o que lhe convier.
Sobre a cabeça, apenas o prãna que paira lonjuras vitais e me sopra, além de todas as rosas dos ventos.

Separo do vento, a chuva azulada de outros quintais que se juntaram ao meu e deixo, sem espantar as libélulas, decantar as portas arranhadas e vertidas d'água até a última gota do seu interior maciço de dores e encupinzado de maus tratos. Há rios que correm pelas fechaduras e não me alagam.

Viver é abstrato e a única verdade palpável é a sua também abstratividade cometida, sem justificações. E pode ser qualquer coisa. Pode ser uma tranca, uma passagem, um coração pendurado nos cílios do que quiser ver.

A sua porta pode estar em qualquer lugar e ser à base de qualquer matéria. Nenhum abstrato alheio me subtrai. Cada um se faz substrato da sua melhor forma de ver e ser. 

Eu então, prefiro ser esse esbarrão no azul das etereacidades dormentes. A lucidez não me mantem acordada. 

│Samara Bassi│

© 2014. É expressamente proibida a cópia parcial e/ou total não autorizada pela autora de qualquer conteúdo deste blog, ainda que devidamente creditado. Bem como qualquer outro tipo de uso indevido da obra. Tenha consciência, respeito e vergonha na cara: entre em contato e peça autorização!  

29.11.14

Viaduto do chá

29.11.14
cristiano mascaro
a loucura se pendura nas pontes 
e ecoa teu verso desmedido,
descalibrado sob meu céu.
atravessa as ruas desertas
e dentre tantas portas abertas, recolhe-se
seca e dormente,
fazendo arruaça
em meus olhos: 
pupilas latejantes.
e morre poesia
num gole de chá.

│Samara Bassi│

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14.11.14

A importâncieterna das coisas desimportantes

14.11.14
Para Manoel de Barros,
© samara bassi
Seguia sempre a carreata de formigas pra descobrir seus segredos de escoteiro. De gente que carregava no bolso um punhadinho de fundo de quintal e era sim, muito feliz por isso. 


[ah, e tem tanta gente que ainda é. Eu sou.]


Olhava os pássaros cantarolando suas manhãs sem pretensão de quem riscava o céu de giz com seus brinquedos de palavra.

Mais que aprender, soube ensinar a maestria das coisas desimportantes pro coração de menino que se alargava sempre como uma asa, prestes a imaginar o próprio voo — uma alegria essa, desimportante pra muita gente.

E eu, eu me misturei na sua brincadeira e quando me dei conta, também já estava lá no dedão do pé do fim do mundo, conversando com as frestas vazias e tortas das árvores.
Passarinho era brinquedo sério porque sempre nos trazia recados de Deus, um tal de amigo mais velho, daqueles que preferem mesmo a vastidão do vazio pra colorir, que a imutabilidade do cheio.

Ora, se somos um rio pelo avesso das coisas que tantas vezes nos noturnam ou entardecem, que façamos da noite uma caixinha de música, onde os grilos e sapos ensaiem suas cantorias em nossos ouvidos sorrateiros e os vagalumes, enluarem os caminhos noturnos da nossa retina. 

— Eu que insisti em versos catados no chão, brotei poesia com pequeneza que ainda quase ninguém vê. Bem, eu nunca levei água na peneira, Manô, mas sempre entendi muito bem tudo sobre o 'nosso quintal ser maior do que o mundo'. Essa intimidade com as coisas que não são coisas, ensinam às nossas percepções outras frequências e aparelhamentos, além claro, dos para gostar de passarinhos — o meu preferido, confesso.

É que coisa miúda é mesmo gigante de habilidades e toda pequenice desatenta também são 'bens de poesia'. Obrigada por me ensinar.

│Samara Bassi│

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5.11.14

A memória dos elefantes

5.11.14
weheartit

Calçou seu andar lento em terra batida, como faz quem peregrina  em busca de um oásis matinal. Banhou-se até encharcar a pele,  descolorindo a terra  de tuas estrias calejadas do ontem. 


— Vá, menino! O dia te busca e te chama. Te ensina. Depois, te faz retornar e me contar tuas fábulas de montanhas, meu grande menino.


Há quem saiba lhe dizer o caminho de volta às margens daquele rio que não chora nem sangra lições infantis da tua passagem. Ordene as ídas  e volte ao meio dia, baixando os olhos de lamento. Há vezes mais que estudei teus passos moldurando o caminho e lama, sem a pressa dos homens. Há lembranças de dezembro em sol a pino. De fevereiro, sob sua estrada farta, ladeada de ipês. Teu passo é longo e lento, e teu leito se verga flexível diante de toda a sua docilidade. Teu coração é a tua fortaleza. Tua força, essa colossal fragilidade que não mente as tuas tantas vidas e vindas guardadas, desaguadas como seus banhos ao sol. Olhos baixos rodeiam os montes e  estendem-se tal qual espadas defendendo teu chão. Deixei meus pés descalços diante dos teus, devotando o sagrado nivelado com o beijo na testa, menino, e toda lembrança vestida de marfim. Teu marfim que por muitos e muitos combates,  não deixaram vingar. Tampouco argumentar por indomabilidades já tão caídas por terra.


— Houve uma noite em que escutei teu choro ecoando na floresta seca. Tão empoeirada de mãos . Tua rota me levou aos teus e, guardando migalhas que pousadas dia após dia num chão pisado de ontens, não reviveram tuas aves domadas diante de nós. Lembra-te dos versos que não compus! Ouça as preces dos teus pequenos, sem o esquecimento. Não, não há esquecimento para ti e nenhum gesto se nasce em vão.


Desde então que debruço todas as minhas tardes sonhadas no teu lombo cansado em busca do que já se sabe, sem revidar. Me conta histórias e também sabe que, alarde é o veio d'água que não molha teus pés e tua sede não mata. Que não te benze no improvável, teu eco calado de dor e correntes.
Lembra-te, então, dos açoites fincados pelo caminho tão farto de nada, que tuas pegadas nada mais fizeram do que guardar caminhos pra volta do teu memorável arrebol de inércias, ainda tão cultivadas no ríspido, no hostil — lembranças ensolaradas de tempo, calçadas de pó. Uma querência que arde na iminência da volta pra casa: teu chão bruto-inesquecível. Há de chegar sem ter ido, sem ficar dolorido, sem lutos no teu coração de rei. 

│Samara Bassi│

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3.11.14

Me serve um blues!

3.11.14
pinterest
Eu quero um jazz no amanhecer das coisas. Um solavanco bem aqui, na minha alma blues pra rimar com tudo.  Eu quero um compasso soul, um sol lá, sim!
Eu quero um sopro de sax, um acorde azul e nu colorindo as asas de uma coisa que não se desfaz.

E quando eu caminhar meus dedos batucando o ar, eu vou despir meu verso que não se intimida diante das minhas urgências embargadas em olhos ainda, calçados na rua.

Vou repousar meu esqueleto antigo na beira da tua canção e olhar pela fresta algum acorde rústico. Teu sopro me venta som e tom, melodia e letra ritmada no instante, todos os espetáculos anônimos. 

— Não, não acorde. Toca um blues! 

Que vou preencher no tom exato o mundo de quem quiser me seguir,  sem se despedir da sua tão sonora caixa acústica, torácica e coração. Minha  mão é  um aceno saltitante que repercute na ponta dos pés, todos os poemas não escritos . Todos os cânticos que não se calam e não se separam.
O amanhã é uma pedra bruta, um diamante não lapidado e minhas costas, alargam-se como um piano, pronto.

Incline a nota diante do fôlego e inspire até alcançar o norte do teu mediastino choroso.
— Garçom, me serve um blues!  Com maestria. Enquanto o inverso da cidade ainda dorme.

│Samara Bassi│

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31.10.14

Tom blues

31.10.14
Para Marcio,

teus olhos cor de céu,
de meio tom,
tão jazz
e blues.

│Samara Bassi│


11.10.14

Inato, a vida é um ato por dentro

11.10.14
❝ O correr da vida embrulha tudo. O que ela quer da gente é coragem.
—guimarães rosa—


christina beckett

A vida tem dessas coisas, aparentemente sem nome. Uma firmeza nos punhos e não se esquece do seu punhado de sutileza — uma gentileza própria e autodidata pra se manter intacta, ainda e apesar dos arranhões. Tem pulso. Dá seus pulos. Ela tem dessas coisas: uma claridade que não se desfaz nos escuros e não se acovarda por trás de muros tombados com hipocrisia. Ela se amansa, espera, acontece. Brilha centenas de faróis no seu céu particular e no final, te dá um sinal verde pra você escolher. Embala criança quase sem querer, mas sabe sem pecar, encontrar aquela poeira esvoçante lá no fundo do quintal. Sabe resgatar a puerilidade impressa e que, por um mero engano, soterrada de casmurrices que o tempo desistiu de abrir brechas. A vida tem um feeling que muito pouco se engana. Que de arrancada, exterioriza um voo sem ensaios e certeira que é, atinge. Não, a vida não é para os fortes, é para os inconformados. Desiste dos rios que não sejam braços de mar. Que não desaguem no que lhe é semelhante.
Navegante bem sabido, desconhece improvisos porque sabe que o agora não está no barco, mas no mar.


[tampouco o caminho está]


Não é sóbria o tempo todo e de sanidade acometida, se faz louca por si mesma. Carrega dessas peculiaridades que desconfio bem e não me fazem parar, ainda que cegas sejam as minhas procuras. A vida, pessoas, é um mediastino implosivo a olho nu e que a duras penas se sobressai, até mesmo e além, daqueles que camuflam asas em seus braços descobertos e instintos crus. Nunca extintos.

│Samara Bassi│


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10.10.14

Caminhante

10.10.14
weheartit

.desatando nós
construindo laços
novos caminhos
um novo ninho
pra tua chegada.

│Samara Bassi│

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17.7.14

Ser bem feliz e nada mais!

17.7.14
Olha lá a janela, qualquer janela. Há muitos e muitos pares de asas e mãos habilidosas que tudo toca e tudo sabe. Tem um punhado de proteção e estrelas que te chove dia e noite sem serem vistas, mas teus olhos se mantém fechados demais pra perceber. Esquece o dia corrido, as discussões e toda amargura que alimenta e mesmo assim, te devora. Não precisa ter pressa, nem desespero. As dificuldades vão continuar a existir e o peito vai dar nó mais tantas outras vezes, eu sei. Eu também sei que a tristeza vai bater na porta e quase sempre a gente vai deixá-la entrar. Mas hoje não, hoje ela nem vai aparecer porque a sua casa é um templo e seu coração é uma bênção que acredite, quer mais sorrir do que chorar. Não, não! Mas chorar não é ser fraco, é ser apenas. Viu?

Sabia que chuva também floresce? É! lava a alma de um jeito que não nos dilui, não, mas nos fortalece. E nos ensina a flutuar mesmo na escassez das poças d'água.  Então, pode chorar quando sentir que precisa. Mas não se esqueça de que o sorriso é cama pronta pras histórias bonitas acontecerem.

Faz uma prece sem palavras prontas, mas nascidas do coração. Apressa a felicidade que tanto ronda o teu portão.
Ventile a entrada e a perfume com boas vindas, sem enrolações.

anna cunha
Há uma casa sem paredes com telhado todo azulzinho pra te guardar sem temores e sabe, vou te contar um segredo: não adianta discutir com quem não entende as nossas interioridades. Não adianta nos sufocar por quem não nos compreende e nos julga com espadas nas mãos. Então, sacode a saia e balança os braços pra libertar as alegrias já tão empoeiradas e não se aflija em meio a situação nem com tanta tristeza, ou com dor que deveria fazer laço e não nó e que deveria se dissipar. Parece difícil, mas não é!

Não deixe os gritos de outros te ensurdecerem e ferirem teus olhos pro belo e pro simples que a vida guarda, diariamente. Tristeza não gosta de coração bonito e o seu, é radiante. Tristeza gosta é de casa escura e olhos baixos. Então, mostre a ela que não é nem um tantinho bem vinda e que apesar dos desafios que nos engolem todos os dias e das portas sem saída, é você quem guarda teu lugar mais bonito onde só entra gente com sorriso de sol e quem você mais deixar entrar.

Mais uma coisa: não é preciso lutar armada, nem seguir com lutos no coração. O que cativa é gente que vibra e nos convida aos aprendizados simples e bonitos de todo dia, mesmo em dias cinzentos. É gente que já viveu muito e tem muito pra oferecer de mais bonito ainda, como você! É tantas vezes, gente que nem é gente e que merece até, mais consideração e afeto.

Eu já te disse:
  Toda felicidade, merece ser notícia em rota sem colisão e a alegria, é o seu melhor escudo e morada... já que combina mais com os teus olhos-cor-de-asa.

│Samara Bassi│

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15.7.14

Das inteirezas

15.7.14
weheartit
Seu corpo,  meu casulo. Que não me pretende o voo. E se já não me arrependo aos séculos de todos os crisântemos,  o meu pudor são gaiolas a que não me presto tal trabalho, porque é somente nele que me  abrevio sem remorsos. 

Meu cheiro carrega signos que não amordaçam desentendidos e de relapso ensandecido, constrói e aflora, teso. Sou toda flor das tuas esperas, das eras é só pra ti que exalo o meu real perfume.

Quem tem um amor,  tem um inteiro de metades frouxas e dissimuladas por aí. São sentidos que não podem ser podados, encurtados, abortados. Quem amor se faz, insacia. Indivisível a entrega se torna, consome e é consumida, m.i.n.u.c.i.o.s.a.m.e.n.t.e. Não se permite ao bom trato das prudências, é negligente com o resto do mundo que não a comportar, inteira. Nunca  em migalhas e ser pela metade, ainda é um ato falho.

Do total aperto dos abraços, enlaça-se os centros. Dos meios,  os vazios preenchidos. Que não me dissimule diante do incerto, as minhas asas sob teus ombros avulsos. A minha nudez é essa abusada inteireza poética que só se constrói quando vai ao teu encontro.  A minha integridade é de fora pra dentro, que só se completa com a tua chegada. É desaforada! E me compõe, sem despedaços.

Atrevo-me a ser todos os teus lados, inclusive o avesso. Ser teu encaixe sem arestas mansas e ainda assim, ser tua mansidão. Tudo que completa é abusivo e não desintegra, soma. Ama e cuida, sem corromper-se.  Exatidão incompreensível e por ser assim, é imensurável à qualquer matemática.

Não sou casa sem telhado, sou tua (na)morada  ―  essa que também  me habita em tantas outras de mim, inteiras. Dessas que só você conhece bem e as têm. Dessas que nos cabe, em concordância com a luz dos cômodos. E sei do quanto de portas nos convidam, sem dobradiças. Nos atiçam e nos atravessam, sem rangeres. É lá que te caibo. Do teu mar dentro do corpo, eu me padeço sem trincar, eu me salgo.  Meu esparramar é um desperdício pleno e sem remorsos. E sem lacunas, me salvo. Te devoro. No teu amar eu me demoro, e não findo. Não me omito, não minto em querer sempre um muito mais.

│Samara Bassi│

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26.6.14

A não vã fisiologia das metamorfoses

26.6.14
mundo psicodélico
Não, não leve sempre e apenas por esse lado: o da filosofia. Mas o da fisiologia, também. E quem sabe essa fisiologia metamorfósica, também não seja uma filosofia vã?! A vida e todas as suas transformações ainda me remetem a um tratado filosófico, muitas vezes de origem duvidosa, onde ninguém está certo e ninguém está errado. Todos somos e carregamos também, nossas teorias-nada-a-ver. 

É sempre o que digo:
— onde está Deus, na verdade? Eu falo Deus, mas me refiro a qualquer outro nome que isso tenha. Manifestação, fé, crença, filosofia, qualquer nome.

Não podemos nos podar com tolices egocêntricas acreditando que a nossa verdade é a 'única salvação' porque se pensarmos assim, já estaremos perdidos!

Cada um, tem o seu direito de crença, seja ela o 'absurdo' que for para olhos alheios e até para ele mesmo. Não importa. O bonito de se ver é a manifestação democrática também nas opiniões, nas crenças, na fé. E principalmente a crença na natureza e/ou no Universo, se assim for. Não é preciso ter religião para acreditar em algo. Até o não acreditar é acreditar. É uma escolha, uma crença depositada vamos dizer assim, na 'criatura'.

Mas, se somos criaturas e somos também criadores., o que somos, afinal? Será que precisamos ser algo isolado de todo o resto para ocuparmos (mais) um lugar além de nós mesmos? Não, né?! Sem dúvida que somos e estamos interligados a tudo nesse planeta e não é bobagem dizer que fora dele, também.

O universo inteiro é um grande 'ovo mexido'.

Tudo na vida se transforma, desde a biologia e toda a fisiologia até mesmo um conceito mais espiritualizado como visões, paradigmas e habilidades que vamos aprimorando e até abandonando para a melhoria de outros. A própria natureza tem seus artifícios pra se manter intacta, ainda que arranhada, pra se manter viva, ainda que esteja na sua maior hostilidade.

Tão verdadeiro é o trecho de uma música interpretada por Marisa Monte: ♫'chuva também é água do mar lavada no céu'♫.


[será que eu desenho? rs]


Tudo que nos compõe veio de algum lugar e irá pra algum lugar, independente da proximidade em que a transformação aconteça, ou não. As distâncias, na verdade, não são empecilhos pra nada que queira se transformar em proximidade, em si mesmo e também no outro. Somos o outro e o outro também está em nós. Num ar que ele expirou, no alimento que consumimos e que somos consumidos, posteriormente. De quê se alimenta um recém-nascido senão de uma magnifica alquimia que o corpo de sua mãe elaborou, desintegrou e construiu?

Somos desde um grão de areia a uma nuvem sem destino.
Somos energia, água, ar, fogo, terra. Somos matéria-prima e dela somos 'irmãos'. Somos tudo que o mundo preenche e também o vácuo. É muita prepotência acharmos que o universo inteiro só se renderia aos nossos caprichos e que, sermos os únicos a ocupa-lo de forma 'vip' seria mesmo muito desperdício de espaço.

A energia que toca a pele de cada um é exatamente a mesma que move cada verme que consumirá um ser após sua morte para, com isso, reverter aquilo que se pensa “morto” em energia novamente. Enfim, tudo é reaproveitado, até a baforada de gás carbônico que expelimos após o ato da respiração. Somos reciclados para proporcionar energia a tantas outras formas existentes neste mundo.

Se eu acredito em reencarnação? É claro que sim. Acabei de descrever justamente isso no parágrafo acima. Sempre que a natureza retoma sua propriedade sobre cada um de nós, ela tece seus protocolos e reenvia nossa energia para as matas, para os rios, para o solo.❞ │Marcio Rutes│

Eu adorei essa parte em que o Marcio atribui a essa 'metamorfose', o sentido de reencarnação. Não havia pensado por esse lado, utilizando esse tipo de conceito.

E quer saber, tal verdade também está certa! Ocupamos um corpo e num dado estágio, ocupamos outro. Ou, o quê se tornarão todas as reações químicas existentes e ebulitivas a todo instante, senão a de transformar?

Veja bem: ocupamos um corpo generalizado chamado planeta e também somos ocupados ou, onde moram nossas bactérias, micro-organismos patogênicos ou não, senão num universo só deles, chamado corpo, humano ou outro tipo de ser? Oferecemos estadia, permanente ou não, dependendo do hóspede.

O nosso próprio corpo se renova e se reconstrói a partir da sua autofagia. Da reabsorção celular e da decomposição de elementos, também de outros, para formar os seus.

Podemos dizer que somos tanto diamantes quanto grafites. Somos, diante dessa hipótese, um emaranhado de cadeias carbônicas que se rearranjam e se condensam, dando forma, cor, textura, propriedades a tudo que se torna vivo e tudo que também não mais é. Mas que pulsa de uma outra maneira e permanece, ainda.

E dessa teia magnífica, onde todo o macrocosmo é entalhado no microcosmo: elétrons, prótons e neutros que constituem os átomos, que agrupados constituem moléculas, que por sua vez as substâncias/matéria, que constituem as células, que por sua vez geram tecidos. Esses tecidos com funções semelhantes constituem os órgãos, os órgãos formam os sistemas, os sistemas o corpo humano/qualquer indivíduo - famílias - comunidades - populações - bairros - cidades - Estados- países - continentes - planeta - sistemas solares e entre outros.... e porque não, o próprio vácuo do universo?

Tudo se interliga por uma semelhança, por sintonia, por programação. Veja um exemplo que te acompanha dia e noite e que nem se dá conta do quão inteligente é o universo do seu próprio corpo: a apoptose celular, que é justamente essa morte celular programada, quando algo não vai bem e é preciso então, ‘morrer pra germinar noutro lugar’, renovar-se.  Tudo flui por propagação. Essa é também a grande ecologia da alma.

Tudo está minuciosamente tecido, mesmo que os pontos sejam diferentes.
No final, somos mesmo é uma gigantesca colcha de retalhos. Se é que existe um final, já que a todo instante tantos outros estão se juntando a nós e de nós estão se afastando, morrendo, transformando-se.

Porque inanimados, ou não, seremos sempre recicláveis. Assim como o copo plástico que já fomos um dia.

❝Nada se perde, nada se cria. Tudo se transforma ❞ ― Lavoisier.

│Samara Bassi│

*texto inspirado na obra 'Reciclando a própria existência', de Marcio Rutes em CRÔNICAS DE AREIA. Os trechos aqui reproduzidos, foram autorizados pelo autor.

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18.6.14

O coração da ostra

18.6.14
weheartit
Escuta. O coração da ostra, o mar dentro da concha. Escuta o que te digo. E entenda. Procure entender. A vida pode caber num pedaço lascado de pedra e contar histórias que nunca soubemos nem nunca ensinamos. Pode sim. O mundo tem lados que nem sequer pretendemos olhar. Alguns detalhes que deixamos passar, umas pequenezas que gritam e nós... absortos numa cratera sem janelas abertas, ensurdecemos.  O engraçado é que só temos olhos sensíveis para o que é grande e se faz visto, mesmo sem ser notado. E nem toda beleza está nas pérolas, viu?!. Não guarde o seu coração numa ostra, mas saiba ouvir o coração de uma. É que (ab)surdos também sabem cantar suas histórias, ainda que a  música não seja a do mar. É, eu também venho aprendendo sobre outras histórias. E reaprendendo sobre as minhas, também.

│Samara Bassi│



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16.6.14

A poética dos sopros

16.6.14
margherita arkaura
Um golpe de ar. Apenas um golpe de ar nos pulmões e a vida reage em cadeia. Dança milimetricamente, mas a passos largos. Flui além. Dos ventos sacudidos nas asas às cortininhas de casa. Da semente que paira e não pára de transpor barreiras às nuvens sem paradeiro. O impulso pra voz, a minha e a sua. O fôlego pra qualquer canto, em qualquer canto. É a nudez não imposta do interno e toda a sua força. 

Tem meu tom, meu som orquestrando sentidos que já não morrem nas flautas de quem não as tocaram. Nas harpas que não musicaram. Tem a minha energia inteira preenchendo espaços etéreos do meu soprar que não sai ileso, mas que também não me pesa. Não é mantra, não é reza. Não, necessariamente. Tampouco mistério. Nem assombra.
São meus ventos que me levam e me trazem toda vi(n)da em redemoinhos elementares. Que colorem o meu sangue e a minha aura. E todo mundo tem. É! 

Então, acordem e ouçam: 
— sobre os acordes que te ninam à beira da noite, em travesseiros de estrelas, há um sopro vital onde o verso é um encontro poético com essa essência que não se pode viver sem. Onde é, antes de tudo, uma inspiração. E de tanto vazio que pareça, o mundo é o próprio impulso de um gigante balão. É um centro vivo e quase solar que ri e ...


g
       i
        r
   a, 

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           i
             r
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                                                                                                                                           i
                                                                                                                                              r
                                                                                                a.


É brisa que se derrama, esparrama e que nos chama para ser ouvida. Não precisa ser vista mas sim percebida. Que se sustenta no ar. 
Um encantavento? Sopro a cataventar? 
Que seja. E que vente.
Que me soprará

│Samara Bassi│

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15.6.14

Do encontramento

15.6.14
google
Reluziu o meu dia, deduzi que seria você. Um já tão perto e certo, que as escolhas eram casacos sob o sol, agonizando a poeira acumulada. Aquela calçada era longa demais, larga demais e não me largava essa querência toda atropelando relógios, fazendo negócio com meu receio de sei-lá-de-quê. Medinho abobado de fazer cócegas na alma com seus dedos de vários tamanhos. Em meio a um rebanho de rostos, o meu olhar já havia reconhecido um outro tão quieto e azulado de riso interno, naquele enrubescimento atropelado pelo indicador:

― É você!


[e não é que você sempre soube mesmo de mim?! e me coube sem ensaios]



Há um certo abraço que não cabe em braços juntos, não por não estarem ali, não, mas é por não alcançarem. Esse abraço, é o coração quem dá de um jeito bem peculiar. E sabe? abraço de coração tem um jeitinho de cheiro todo bom. Tão bom assim como o seu, como o nosso e todos os nossos nós. São ainda, nossas temperanças como especiarias em todos os momentos, em cada passo na calçada, em cada beijo morado e demorado além de si mesmo.

Um coração balançado no bem querer é o balangandã mais bonito no mundo.

É também o enrosco de pernas, de bocas, o encaixe dos sexos, o não ter que haver nexo para quem não participa. Bonito mesmo é essa mistura do bem e do bom, é a nossa bobagem mais gostosa não ter que fazer nenhum sentido pro mundo lá fora. Mundo esse que também não fazemos questão que nos sinta ou nos minta qualquer gesto, qualquer resto de desagrado.
E por falar em gesto, num de repente o seu sim!


[e me coube, sem ensaios, à beira da janela]


Você me veio com olhos cheios de estrada e os meus, escolheram o caminho mais longo pra te acompanhar.


[e me habitou inteira, sem receios de não caber]


│Samara Bassi│

© 2014. É expressamente proibida a reprodução parcial e/ou total de qualquer conteúdo deste blog sem a autorização do autor. A cópia não autorizada e/ou qualquer outro tipo de uso indevido da obra, implicarão em penalidades previstas na Lei: 9.610/98. Não viole. Conscientize-se e passe esse respeito adiante -

31.5.14

Do encantamento breve que não está nas bíblias

31.5.14
weheartit
Vem do fundo essa vontade que ninguém soube explicar até hoje: a do encantamento. Não que seja teoria ou tese, muito menos hipótese de doutrina. Mas se for, então que a minha religião seja essa. Mas, refletindo cá com meus rosários-para-qualquer-flor-e-seus-botões, melhor não. Melhor não, porque não aceito bem religiões que ditem os meus caminhos e pressagiem as minhas escolhas  nem as boas, nem as más. Nunca fui de nenhuma delas, embora me entregasse sempre ao ensinamento seletivo que cada uma me foi capaz de trazer. Como assim é.  

Aceno é para as ligações internas que cultivo comigo mesma e com cada um ao meu redor. Sou de questionar e de me permitir aos (dis)sabores, aos exemplos, ao encantamento. Me permito principalmente ao desencantamento das coisas, das pessoas, da vida. Ao desencanto por mim mesma. Ao decantamento da alma, antes que as aflições me exorcizem ou me cuspam em fogueiras de inquisição.  Minhas páginas não se rendem a testamentos e a minha brevidade é menor que a quantidade de linhas dos teus Salmos. É exigente, ainda que instantânea e os meus dogmas, são todos livres. Meu coração é meu pastor, ainda que por vezes não me agrade, não me ate nem desate em bons conselhos. Então, que não me venhas com tuas palavras em rezas impostas no meu portão! Não, não que eu não vá te ouvir, não é isso. É que palavra é mais que sagrada na sua intenção que na sua própria forma esculpida, só porque assim alguém também a repetiu em teu portão. 

Encanto-me como quem constrói templos e alguns deles, são pra vida toda. Peregrino cada momento é por dentro dos olhos porque o dia corre e ainda assim, me alcança e nem sempre tem tempo de fazer o sinal da cruz. Encruzilhada pra mim, é abraço cruzado na frente do peito e atrás das costas e ainda te digo mais: (me) protege mais que talismã. Me fortalece porque me recebe no outro, quando é tudo coração. Minha brevidade é um encanto pousado na flor que em horas se transforma em um resquício murcho sob o sol de meio dia, é passarinho voando sem pressa de querer pousar nem voar mais longe, porque é o livre arbítrio também da sua escolha de bem ou mal querer o próprio voo. É contorno de formiga cirandeira na folha da roseira, é não ligar pra ser ou não ser. 

Serpentes não são vingativas, elas são instintos sobreviventes da natureza. As pessoas é que são, enquanto eu aprecio, encantada, o sabor afrodisíaco das maçãs. Heresia? é somente a minha consciência que me dá sermão, que me tira a mão ou que me atreve ao gesto, enquanto que pecado mesmo é um dedo-pseudo-juiz-do-juízo-final apontado pra qualquer direção.

O meu encantamento é asfalto quente borbulhando em passos que grudam como quem não quer passar sem ser lembrado, sem deixar marcada a sua história num pedaço de chão. É natureza refletindo na janela cuspida de orvalho, de lama na porta do carro que não soube esperar demais. É de quem soube me aprender sem me prender. Sem me corromper em apocalipses egocêntricos. É meus olhos nos teus, por qualquer razão, inclusive a de te ouvir, quando tu vieres ao meu portão. Feitiços? as bonitezas nos hipnotizam diariamente e são tão simples que até nos esquecemos. Não, as bonitezas nunca se esquecem de nós. E se eu mantenho os meus joelhos no chão, é pra brincar de ser feliz. De procurar tesouros embrulhados de capim. 

E quem vai dizer que um encantamento assim não é morada? A tua criança guarda um anjo que te acompanha, mas não tem auréolas. É!  
E quem vai dizer que Deus não existe nisso tudo. Que não está em você e em mim, também?
Aliás, quem vai dizer que Deus tem um rosto só e que sua morada se assemelha a chãos e telhados de igrejas? 
Meus relógios não compõem sinos e também não badalam. É um tic-tac irritante, mas eu até que gosto.

A minha casa é minha igreja onde o meu quarto guarda um terço da minha própria construção. Meu acampamento é capela. O chão do meu quintal é meu chão sagrado. Não esconde ouros, nem dízimos. Pode não te dizer nada, tampouco sobre (meus) encantamentos que nele fazem novenas, fazem histórias, criam suas próprias novelas. A minha palavra não é santa nem tem pretensão de ser. Mas é para mim, um tipo de prece poética que abençoa o meu senso interno de humanidade.
É!

E quem vai dizer que a minha bíblia não é válida, só porque não cabe em minhas mãos ou que a minha fé é nula porque não acompanha os seus conceitos?
Quem vai dizer sobre o que não está escrito? 
Dito pelo não dito, bendito é quem condiz com o próprio coração. E o meu Deus é um sujeito bem encantador, viu?!

│Samara Bassi│

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29.5.14

Edital de ida

29.5.14
Julie de Waroquier
Para não restarem dúvidas: eu estou dando adeus a tudo o quê não me encanta mais, mesmo que já tenha sido. 
A tudo que não me faz falta porque já não me percebe na ausência, tampouco me recebe em essência. 
A tudo e a quem não me acrescenta, ainda que não tenha ido. 
Estou excluindo quem já não me dói, nem me sorri. 
Nem no gerúndio nem em modo algum. 
É que eu também estou indo, assim como você. 

│Samara Bassi│

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23.5.14

A intenção etérea da palavra

23.5.14
weheartit
Não escrevo para os que têm olhos, nem para ser lida. Não é essa a intenção.
A minha palavra, embora habite um corpo e ganhe forma, ela antes de tudo tem é coração. Crio-a ao mesmo tempo em que me despeço dela. 
E se por uma desintenção qualquer ela tenha ido por um atalho a ponto de ter sido lida, vista, decifrada... desculpo-me, então.
É que a intenção da minha palavra também não é para os que têm asas nem para os que não as têm. É para os que voam.
Para os que voam: é pra vocês que a minha palavra pretende.

│Samara Bassi│

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20.5.14

Antes do fim de maio

20.5.14
maio já está no final, é hora de se mover 
pra viver mil vezes mais
—kid abelha—

weheartit
Na minha janela, há luz. E há também um punhado de tardes dormindo nos olhos. E pra sorrir, acendi muitas luas até aqui. Passei chuva, passei sol. Arco-íris eu mesma colori, assim, meio que atrapalhada. Mas quer saber? até que valeu! Valeu, porque a gente só descobre o paladar dos dias quando se mistura com eles. O perfume e todas as cores eu também busquei na paleta das minhas lembranças. Uma boa nuance, uma mistura da qual eu mesma me orgulho.
Eu me orgulho ainda,  das escolhas erradas e que nem eram tidas como tal, quando foram escolhidas e lá na frente, colhidas. Me orgulho por não ter que ficar justificando pelo resto da vida e para as outras pessoas todas as escolhas que fiz, os caminhos que tracei e que por ventura, desviei. Me basta apenas fazer com que eu saiba, eu compreenda e somente eu entenda o porque de cada uma delas. Porque só eu sei, aqui dentro de mim o que cada uma me trouxe de bom e de ruim e o que e como cada uma me representa. Algumas se comparam a roupas na vitrine — aparentam ser a coisa mais linda e ao vesti-las, o sentir na pele traz o desencanto. É, eu me orgulho, ainda que me doa vez ou outra, de ser quem eu sou. Por ser reciclável, não descartável.

Ei, e teve um tanto de belo! Maravilhosidades que não importam a mais ninguém, porque nenhum olhar é igual. Eu só sei que fiquei (até) aqui, onde meu coração tem feito morada e namorado dois pares de céus — o azul e o reflexo, se é que vocês me entendem.

Maio, maio, maio...
e a vida me traz tanto gosto de um sol morninho pelo meio das horas, com brisa de minuano azulado nas bochechas que rosam. Um rosado de púrpura enrubescido de Deus. Aquele gelo por baixo do queixo que só arrepia vontades de abraço e um muito mais.
Das tangerinas descascadas à beira do quintal, o que fica mesmo é o doce de sol melando nos dedos.

Será que a gente se acostuma um dia a viver sem esse "ensaio de inverno"? Porque há uma certa magia nesse quinto lugar do ano que me embrulha sem perguntar. 
E como eu, há também quem desprenda um riso por nada, mas que não é por nada que se desprende da dor. Que desaprende o que pesa nas costas e no mediastino, já tão marejado dessas águas que passam, que passam... cristalizando um choro sem beiradas, nem asas, nem penas.

Meus braços são pontes e alcançam o topo dessas estrelas que a gente brincou de desenhar com a ponta dos dedos. De escrever nomes na janela respingada de chuva e no vidro do carro. E aqueles dias mais frios que amarelam as folhas ainda presas nos galhos, constroem na brincadeira, um balanço no cílio que faz a gente dormir abraçado, sem nem perceber. É que a gente se quer tanto (pra antes do fim de maio e também pra depois) que um detalhe manso se faz grande num piscar de estrelas, no piscar do teu olho.

Maio nos toma, nos torna além de um pôr-do-sol. Ensaia passeios com mãos dadas e sonhos nos bolsos. Cabana de cobertor com vista pra janela da sala.
Nos faz reféns de um bem querer mais largo, mas mais perto: o meu bem querer, o meu eu em você, as minhas brisas todas no seu respirar. E antes que ele acabe, isso tudo é só o começo de tantas outras proximidades que ainda serão, das histórias que contaremos.
Dos meses, das estações... de tudo que já fomos juntos e do todo que já começamos a floreScER.
E antes que maio acabe, já teremos sarado, já teremos sido, sorrido... mais de um milhão de vezes.
Seremos, também pra lá do depois.
Pra tantos outros começos e finais de mil meses e maios, ainda, além de nós dois.
Tantas histórias ainda nos dirão sim e nos farão casa, serão nosso céu e nosso chão. Nosso teto, nosso humilde castelo. Nossa embarcação.

Você é tão bonita! Parece um princípio claro e simples no mês. E também silencioso, como tudo na vida.
E eu segui acreditando, como deve ser. Independente dos meses. Independente de quem quer que seja.

│Samara Bassi│


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7.5.14

Chá com Alice - I

7.5.14
Google
Debulhando migalhas de lágrimas, tropecei n'uma estranheza sem berço o meu olhar de surpresa, até reencontrar o caminho de outros segredos nos meus joelhos esfolados. 
— Como pode esse lugar sem beiras no mapa, ser assim tão inspirável? Essa imprevisibilidade toda por aqui me tonteia!

Não há chaves, nem fechaduras e meus olhos não enxergam o seu real tamanho. Nem o meu. Aliás, eu desconfio de que posso ser do tamanho que eu quiser.
— Maldito rabbit engomadinho que me apressa o caminho com seu maldito relógio! Não quer me dar tempo ou quer que eu busque-o demais?!

Ah, esse coelho! Talvez nem saiba que o atraso já é tempo parado no tempo, há tempos. Que é uma linha tênue que nunca foi futuro e caso já tenha sido, foi-se logo que nem despertou a tempo. Mas a minha curiosidade não acompanha o seu ponteiro (dis)parado, ela ultrapassa-o e não teme seus esconderijos intocáveis e arredios que rodeiam a sua côrte.  

Deve ser por isso que corre tanto e nunca se deixa ver:  Quem muito se entoca, não se deixa tocar. 

│Samara Bassi│

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28.4.14

Pequenino embrulho-luz

28.4.14
weheartit
Numa prece sem depressas, tudo se acalma no peito. Ganha o seu lugar, o seu habitar sereno acompanhado de muitos afagos. Quando existe um detalhe querendo se formar perfume de acomodação e já se entalha com risos de Deus, o acontecer é certo. Não tão rara é você, querência que me aconchega por dentro e traz mesmo num choro, o teu pequeno perfume de endro. E de já ter feito de acertos tantos caminhos, eis que adentrou no meu. É que depois de ter sido pássaro, tua vida pousa na minha e já encontra caminho fértil, já germina vontades de berço e abraço pra enfeitar teu pequeno corpo de luz — um pequenino frasco de essencialidades de alma. Clar'alma.

Sei de você um bocado e já te amo um mundaréu! 

Sei lá como é aí, mas aqui, cada vinda de manhã é uma coisinha que anjo assopra no ouvido da gente pra crescer no coração. Se fazer forte. Não é sorte nem milagre, é pequeneza rica pra quem se cabe todinho num traço de sonho e de levezas diárias. E sabe ainda de tantos segredos mais, que o sono é só feitio de anjo, assim feito você, pra te cantar um poema, te rezar na canção o teu balanço de ninar.
Teu cheirinho já é meu singelo balangandã pendurado no varal dos meus dias mais ensolarados que é pra dar sorte. Pra somar mais luz e aquele punhadinho de paz. 


— Sabia que de tão curiosa, veio salpicando cócegas no sentimento? Porque ser claridade é assim, ó: 
— um olhar atento praquilo que Deus posta todos os dias nas suas cartas e remete, somente para olhos brilhantes. 


Eu sei, a vida é ainda um passo pequeno, mas por dentro carrega aquele sopro de ar necessário pra se impulsionar. Teus braços repousam e são mesmo feitos de asas, asas de toda cor. Ah, eu me orgulho tanto de te querer acontecer. De te querer embrulho pequenino e preciso em redes tão bem tecidas de amor. Você é meu amor maior e tão florido. Já é minha primavera farta, ainda sendo tão SeMente guardada de nós. Desse embrulho, respiro um tanto de amor que se torna presente doidinho pra se desembrulhar. E de um mundo todinho claro pra sua chegada, meu coração é quem mais te faz festa e guarda mais de mil beijos batizados, assim,  em teus dedinhos de condão.  


[ah, a sua sutileza existe tão forte num duplo tum-tá! é o que mais me encanta em você. 
e o que me compõe, também. sem complicâncias.]

│Samara Bassi│

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