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Todo mundo carrega um voo dentro de si, um pedaço de asa e mais cedo ou mais tarde, toda bagagem é um resquício de ave que nunca soube ser chão.
Você também, em algum lugar, por algum tempo. Em tempo nenhum. E não importa o endereço, o minuano, a casa de hoje. O vento sempre empurra, ensina, provoca. Insinua o que, para olhos de metáfora, a indiferença é um contexto à parte.
As minhas pálpebras se formaram rasas e como asas sempre abertas, não se acostumaram a dormir.
É por isso que eu vou voo na minha brevidade de sempre, sem tempo, sem hora. E volto, mais prenha daquilo que me permitiu ao leve.
Eu sempre levei comigo esse jeito de saber certo, o meu lado mais errado do mundo. O meu avesso e o de não me prender. O meu lugar é o de não pertencer, ainda que me faça caber de alumbramentos. Nas etereacidades todas é que me demoro, lá, num morro de não ser casa.
Não morro se não for asa, nem se não for chão.
Lá, a minha alma entardecia num par de asas impadecíveis. Abertas, me cediam o voo.
Sempre.
Me acompanha um sopro não medicinal, além das janelas, dessas daqui. Um golpe de ar vestido de sina. A minha urgência de vento é mediastinal. Golpes de ar são sempre medicinais. Te engolem por dentro, ventilam o espaço entre o meu peito e o teu.
E eu, eu me acostumei assim, porosa pra me permitir ao voo. Sei lá, eu ter nascido no 'mês dos ventos', talvez explique essa minha sina de asa. Talvez explique ainda, tanta coisa que não é de mim e ainda assim, possa me pertencer. Talvez, não explique é nada do que você queira saber. Ou suponha. E esteja aqui mesmo para suplicar o não explicar coisa alguma.
Têm tantas teorias debruçadas nas histórias de ontens que somente nos deixam um interrogar tonteado e arisco ao redor do umbigo.
Parece estranho e contraditório mas, às vezes, deito-me de bruços que é para aliviar o peso das asas.
Não, elas não me pesam sempre, só quando a chuva é de dentro e os acenos, conseguem o feitio constante dos temporais, dos vendavais. Dos varais isentos, não dos que não cativaram suas asas, mas dos que não voaram e sem saber, dormiram teus olhos num horizonte volátil. Intacto, quase sempre.
É! E tem também, choro que vem da gente, mas não é da gente.
[a gente pensa que não].
— É a tristeza e a tristeza, é um tipo de mar!
Talvez, ela até seja mesmo é do mar, e não dessas coisas todas que a gente carrega, leva e trás sem desapegar. Acostumamos com pegadas em qualquer caminho, caminhos alheio as ondas. Assim, há mesmo de se comportar tantas águas, em tantos olhos que de profundidade acostumada, eu pouco me afogo.
É sempre como uma espera de um barco à vela que precisa ventar. Ir. É uma espera cor de maresia, e dói, transcende em verde-água, mas abreviadas sejam as longas esperas, não as eternas. As eternas, possuem a mágica estranha de arterializar aquelas que, por descuido ou desesperança, se despedaçaram pelo caminho. Perderam o viço.
A eternidade vivaliza os encontros. Os desencontros mudam de cor, de rotas, de ventos.
Eu, aberta-asa, moro num desses golpes, mais do que nas brisas. Me permito à demora das instabilidades. À moradia das impaciências. Me permito às Monções.
Mediastinos que se vestem assim, de correntezas sazonais, têm sempre um cheiro de vinda no ar. Essa etereacidade de boas vindas também ameniza, qualquer asa pesada, qualquer vestígio de dor.
Qualquer pálpebra livre, até fechada de não querer sonhar.
Estou agora, meu bem, prenha de eternidades.
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