25.10.16

Flores mediastinais

25.10.16
we heart it

Brotam as folhas de uma nova cor. As flores, já clareiam diferente as retinas úmidas de desamparo. Mas não mais. Não mais a dor atravessa fincada o avesso do peito. É chegada a hora de reflorir as estradas e os céus de um tom mais uniforme, mais vivo. 
Mais amoroso. Digo: mais por dentro! 
Os acontecimentos são esperas rasas de um dia que não terminou e alterna, sem desesperos agudos, entre um precipício pronto pro voo e um abrir de braços. De asas que nunca souberam ser o chão dos passos presos mas que dormem, tão férteis de si.

Então te pergunto;

— O quê há por dentro do teu peito? sopros de ar?!
— Que seja o que for, mas que alimente todo o teu impulso vital.

Eu, eu tenho um vento que não dói sem porquês e não asfixia, sem argumentos. Uma aura de sanscriticidade que me compõe há milênios: vento, vento... Vayú. Um sopro de ventania deslizando por cada broto arterial. Há ainda, uma vida vasta e larga que flui, e flui, sem congestões.
É que tenho no peito um mundo maior que me cabe e me sabe, sem qualquer um entender. Me tenho e, ainda que doa ter a mim mesma, há vezes em que me tenho mais. Me retenho. Me respiro, sem brechas.

Acredito que mediastinos que não se permitem apressar às maturações, abraçam mais vezes a luz de todos os dias. Acontecem, silenciosamente.

Mediastino tão meu esses galha'braços sem limites por tudo aquilo que me mantém intacta e mutante, sem corromper as partes mais frágeis. E de fragilidades breves de mim, ainda sei que vivo parindo faltas de ar mas também, sem dilacerar as pequenas flores mediastinais.
Sim, há em você flores mediastinais, também. Coloridas. São mensagens cultivadas de forma sagrada. Tua alma que sabe e conhece a real espécie de cada uma.
Há tantas flores. E a gente que não se prende por nada, aprende a não apressar os ciclos, a não mais mudar sem sair mudada. A não ser indiferente às implosões que rastreiam no peito e no corpo da gente, pólen de bênçãos.

Há esse pulmão ainda sufocante, mas inerte como pássaro em gaiolas e sóbrio, querendo expandir.
Há sim, ainda, muitas dores filhotes, muitas cicatrizes anciãs.
Mas talvez  ninguém saiba que de tanto derrubar árvores e folhas, e flores e o mundo todo por dentro... forra-se a cama ao chão de uma quentura transformadora. Rompem-se as sementes cobertas.

Elas sempre se erguem. Mas entenda: elas sempre foram nós mesmas.
 Há muitos que não sabem. Os façamos saber!
Ensinemos que todas as sementes são farturas intactas de uma individualidade sem esquecimentos. De uma verdade sem desbotamentos. De todas as estradas que nos levam pra uma sincronicidade delirante. E você nem vê. Eu também não vi tantas e tantas, num caminho qualquer.

E quantos de nós sentamos nas beiradas, nas margens afoitos, por contorcer as próprias idas?!
Não respiramos calmos, nosso próprio perfume.

Foi quando mais me ceguei por fora que descobri a mim mesma, com um olhar mais sábio, diferenciado. Mas eu, eu sempre fui a mesma. E não sabia quem.
Por dentro, meu olhar é mais nítido. Um tanto confuso e transformador. Me alcança e me toca. Me faz ninho.
Meu peito expande e sabe sentir um vento secreto, que tanto me diz e me ensina caminhos de pegar carona num voo sem bagagens. Das mais leves, somente as mais livres.
Visto-me e só sei me vestir assim:  de um sopro de ar mediastinal e urgente.

É que já te disse: urgentes são todas as vielas que arterializam o mais bonito universo de cada um — um mediastino florido, ainda que murcho e dormente, mas voraz de frutificar o possível, tão natural e crescente.
Tão cheio de si.

│Samara Bassi│


© 2016. É expressamente proibida a cópia parcial e/ou total não autorizada de qualquer conteúdo deste blog.


não copie sem autorização, mesmo dando os devidos créditos.
SEJA EDUCADO (A).  SOLICITE AUTORIZAÇÃO.


Nenhum comentário:

Copyright - Quintal de Om © 2012 - 2017. All Rights Reserved to Samara Bassi.