3.9.16

Amareluz-deserto

3.9.16
julie de warroquier
Foi desértico. Foi também um ar polar. Um ártico por dentro, talvez de um livramento já aprendido. 
Não soube acrescentar lágrimas de imediato. Soube apenas (me) guardar no coração, uma sensação amortecida, uma voz adormecida, ainda sábia e consciente. Uma sobriedade sem sabor. Tal calmaria me foi tão peculiar que me senti madura e pronta, pra o que quer que mais viesse agora. O saber ensina, mas também assombra. E sombreia, vez ou outra, dias de luz.

Sim, senti teus braços prontos sempre e agora, mais ainda pra me ancorar em teu peito, qualquer luta, qualquer luto. E aquela mesma autogestação que tanto eu quanto você, conhecemos tão bem.

Ainda que o peso da genética me alarmasse, senti-me leve como poucas vezes. Senti-me, claro que , como uma poeira levantada por ventos rasteiros, mas que soube aos poucos e ainda há de aprender muito, a tomar seu lugar brando sobre o chão. A se encaixar nos fatos e nas lições que não se pode negar. Que não se pode mudar. Mas que se pode contornar com um tanto de bem viver  e que, de certo,  se aprende na dor: um autoconhecimento que abisma. Uma amplidão que se ilumina e varre o peito com cores de luz. 

Sei lá, me senti luz e pó! Tão terra, que é lugar onde mais me misturo. Me senti vazia de uma areia que tudo move e de uma beleza árida que palavra alguma seria possível transmitir. Me desaprendi num segundo e no outro, me desprendi de outras tantas cancerígenas egrégoras, sem força alguma. Sem rastros. Ou metástases.

Ainda que desértica, me senti fértil. Fértil de possibilidades, de curas d'alma, de fortalezas que me nascem e querem vingar todos os dias, que enraízam o meu corpo já vestido de sementes.
Sinto-me ainda, calada e atenta aos acontecimentos, às probabilidades mas, sinto-me mais ainda, livre como um bando de pássaros que sabem do seu lugar no vento. Que não se rebelam às tempestades de areia e de chuva. 

[...me permito às monções.]

Me permito enfrentá-las desde já e desde já, abrandá-las em mim. Assim como fazem eles que enfrentam-as e fecham apenas suas pálpebras cristalinas para que não firam tuas rotas. Enxergam além. E voam, também. 
É isso: me sinto pássaro — passo-me adiante, uma asa após a outra.
Sou etérea. Por natureza, misturo-me ao que me faz bem.

│Samara Bassi│


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Um comentário:

Crônicas de Areia disse...

Ela erradica todos os pecados ou impurezas e atravessa a sétima porta. A aura manifesta-se de forma tal que permite que todos os que vêm a sua presença se tornem calmos e sensíveis frente a seus sons; o ritmo é gerado pelo próprio corpo de quem a enxerga.

Ela vai além de todos os tipos de desejo que motivam a vida e impelem ao movimento em várias direções. Unidirecionada, conhecedora do passado, presente e futuro.

O olho entre os olhos. A vida que brota da própria vida, que é existência pura, energia cósmica e sopro de divindades tantas, mas que se fundem numa única para dar sentido ao êxtase de se sentir solta, leve, sensitiva e conhecedora de suas pegadas que vão adiante de seus próprios pés.

A visão entre tantas visões. Aquela que a motiva a seguir uma trilha que por vezes se esconde da luz, mas mesmo assim encontra irradiação própria, interna e externada em fachos miúdos, mas que permeiam cada pirilampo do caminho. Não se perderá em seu destino, mas sim em sua vontade de descobrir aqueles mundos novos que os mapas velhos não mostram.

A vontade muito além das vontades. Ela se descobre a cada dia, para o bem ou para o mal. Pois é assim, e ela sabe. Somos essa balança de sentimentos e ações, de reações e angústias, de desejos e medos. Enfim, a vontade carrega sempre para um caminho novo, e que se for bem escolhido, pode resultar em equilíbrio. Esse sim é o poder mediador, aquele que traça uma parábola no tempo e aproxima futuro e passado. Seus dias, amanhã, resultam dos minutos de ontem, que se bem aproveitados, vingam fortes no instante do agora.

A pergunta entre as dúvidas que ainda nem existem. O corpo, esse que a assusta, que prega peças e por vezes extrai lágrimas. Esse mesmo que carrega sua carne, que é uma casca para aportar a energia cósmica que a move de verdade. Ele tem suas nuances, suas necessidades, e por vezes segrega sangue para agregar conhecimento. O corpo, mesmo apenas casca, é oráculo, aporte dos olhos, da visão, da vontade e das perguntas. Ela agoniza noites insones com a incerteza de um futuro sem dor. No entanto, sabe também que a previdência não é divina. Jamais foi. Cabe a ela zelar pela casa-carne. Cabe a ela evitar ou suportar as dores. Cabe a ela limitar as impurezas e excitar as certezas e bons desejos. Cabe a ela se manter limpa num mundo tão poluído.

Se hoje eu sei tudo isso, é unicamente porque ela me ensinou. Me mostrou o respeito que devemos ter em relação a cada coisinha que existe, e também com nosso próprio corpo. Mas o espírito, esse merece atenção especial. E que se diga, o equilíbrio buscado vai muito além daquele que deve existir entre forças opostas. O equilíbrio deve existir, essencialmente, entre corpo e espírito.

Aprendi com ela, também, que uma caminhada é excelente tanto para corpo quanto espírito, mas essa caminhada é muito melhor se for a dois, de mãos dadas.

Ajna. SeMpre.

Não é, Sáh?

Te amo, minha menina linda.

Marcio Rutes.

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