24.7.16

Partir é ir em par

24.7.16
©2016 - samara bassi

Eu guardo festa nos cabelos. E na ponta dos pés. Não porque é assim que deve ser. Mas porque eu quero que seja assim. Acredito que as voltas da vida são cirandas que nos ensinam os ciclos de cada dia. As revoltas de cada dia. Cada dia em si. 
Desde que aconteci meus eixos em vertentes de repetir manhãs, eu deslizei meus cílios cadentes no teu pescoço de lua. Um espaço sagrado que todo mundo tem. Só não tem como você!

Talvez você que eu nem conheço mas que acha me conhecer, me estranhe falar assim:
— É que o melhor da vida nunca há de vir. Ele sempre está passando por entre o vão dos dedos e debaixo das saias mais abusadas. Não, não! Não há de se temer ser quem se é. De rodopiar vulgaridades aos olhos alheios até porque, eles não sabem de nada. Não sabem da gente. Não sabem da leitura interna que cada coração que, timbrado de cicatrizes, 'embrailiza'.

E você?, cansado de ver teu corpo solto numa estrada qualquer, há um qualquer de hoje que sintetiza tua caminhada toda. Não sei qual a tua rota, nem da minha eu sei. Mas busco. Me iludo com o tempo ruim que faz sob as nuvens e transmuto-me, vazia de dores mais transparentes do que eu.
Acredito nas vezes que me diz que teus olhos são lápides velhas escondidas por baixo da terra. Qualquer um diz isso. Quem fala de si, certo deve estar. Quando falo de mim, falo de terra. E você deve estar cansado de saber que terra e eu somos uma coisa só. Não sozinhos. Da terra, eu apenas me misturo quando é dia de ser do mundo. 

Meu mundo é pedaço de chão, meus sapatos, a sola de um pé que não cansa de topar seus dedões com formigueiros e que... também sacralizam teu jeito de benzer raízes, de alimentar a seiva da própria identidade. Minhas raízes são livres e fortes. E fazem tua casa onde bem entender. Se bem que casa minha mesmo é um pedaço de asa e um punhado de vento. 
Pra quê lamento, quando se tem pra onde ir? E um abraço gostoso que se encaixa tão bem no nosso corpo e alma todinhos?! 

Lamento pra mim,  é leito de rio que não se contenta em ser água, quer ser represa.

Você, que me vê mas não me sabe. Eu é que sei de mim. De mim sei o bastante pra não me acovardar dos restos que deixei pra trás. Das lutas que lutei sem perdas. Das perdas secadas sobre as pedras de um muro, numa estrada de terra qualquer. O meu lugar é qualquer um. Mas não é um qualquer que me cabe tão bem. Sei lá. Há tanto que se ouve dizer por aí em partir. Não que me doa seus conceitos, mas me rastreia teus versos soprados como quem se dói a toa. 

Partir pra mim, é como parir um outro hoje e acrescentar estradas aos olhos. 
É abreviar os momentos enquanto eles são mágicos. É não se prender na dor, mas aprender a si mesmo e isso, acredite, dói!. 
É também, se concluir num olhar de azul. De qualquer cor. É ir, apenas, pra um bem querer maior. 
Partir não é separar, é juntar.
Partir é ir em paz. Mais, partir é ir em par.

│Samara Bassi│

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