18.1.16

Ciranda de Gaia

18.1.16
©2016 - samara bassi
O meu corpo é constelação, translúcido de vontades. Tua ira, tua volta sem ruídos de vento por um instante. O teu som é murmúrio de besouro, pio de passarinho. Tua vida ancora no meu ventre, todas as nossas crianças. Esse é o tom antigo que toca todas as músicas. Por dentro das vidas que não vingaram, retorno-me como semente, como a seiva do sagrado veio dos teus rios. Sou mulher de acrescentar caminhos e de olhar cada um com meu coração aberto. 

Te recebo todos os dias num levantar suave de raio de sol. Teu arrebol é singular, como uma prece de desabrochar cirandas — essas mandalas de todo ser e que põe sempre toda vida em movimento. Tuas raízes abençoam os meus pés inertes na tua lama, na tua cama de folhas e de todas as flores colhidas de ontem, faz do incenso aceso de todas as eras e de todas as ervas,  a alquimia d'alma essa sabedoria anciã. E devastada.

Aprecio teu canto me rondando as têmporas. Houve um temporal guardado na minha lembrança sobre o que já é sabido: as tuas armas não coincidem com guerras mas aprendem a lidar pacientemente com a beleza, querendo voltar ao que era. Te alimento em mim. Sim, te deixo fluir! Te deixo girar o carrossel do tempo. Te deixo em paz pra cultivar a paz que me dá.


[... o teu sol é o meu girassol ancião!]


Sou terra e da terra sou ente, parente. Sou filha de Gaia, da lua e do mato. Sou os meus passos nus na tua estrada de pedras. Respeito o contexto e tua marcha me marca a próxima moradia. Tuas montanhas, o meu seio e ponte. Instinto me aponta teu vento e é circular. Leva assim como traz. Não é preciso choro, nem desaforo. Desabafos, somente de chuva. Há lágrimas ainda regando as raízes dessa tua flor de sal.

Vê! Também me senti flor, ainda em botão. É que o teu desabrochar me preenche as marés de aguar jardins, esses internos. Desses invernos não tão rigorosos. Sei que não há de ter mais mágoa nas tuas águas que me correm e morrem sem benzer cristais.

Aprendi contigo, a respeitar os ciclos, a me enluarar de luz, de traduzir a conversa dos lobos e de saber entender que todo renascimento é uma ciranda que nunca termina. Que se faz feminina em qualquer gênero. A humanidade é uma grandiosa forquilha que ainda não se percebeu, minha mãe.
Ciranda então nos meus olhos, como sopro nos cílios. E como vento que me arrasta, também me revela esse teu mantra-semente. Há de saber que tua parte fluidifica e compõe toda a minha arte. Nela, há impresso toda a tua energia e prãna, que gira, gira, gira um universo vivo e em expansão dentro de mim.

Minha mãe, minha terra, planto meus pés pra te consagrar a vida. Nossas voltas juntas são sementes que também haverão de germinar em mim. Por enquanto, a minha autogestação te acompanha e te conta histórias, também de frutificar amor.
Pra você, o meu coração é mandala que nunca termina. 
Não finda, só recomeça. 
Como tu!


│Samara Bassi│


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