25.12.15

Luas no chão

25.12.15
©2015 - samara bassi
A gente que atravessa os dias e as noites como fases da lua, sabe bem dos vergões que a vida deixa e que urtigam, não por punição, por ensinamento. Eu, atravesso-me e me reconheço descoberta sobre as minhas idas mais floridas. Delas, a essência cheira a incenso, a um buquê de ervas-de-cheiro e outras bençãos.  

Eis a dança que tropeço e rodopio sem calçar tabus: essa sequência de mim mesma e que não é visível mas perceptível como galhos de árvores erguidas ao céu. Querem tudo! A luz e da luz, o fruto. As transformações, os laudos que o coração deixou impressos, como roupagem de tantas vidas, como as texturas das cascas e também dos espinhos. 
A recomposição, o resgate de uma era inteira, sempre a partir de outra.

Minha natureza é cíclica, não redonda. Ela possui arestas, são pontiagudas, por vezes. Carregam a maciez de um tapete de musgos sob também os seus pés descalços, selvagens, acostumados a correr com lobos, a atravessar riachos, a se guiarem por seres da floresta.

É verdade, tantas vezes desvencilharam-nos de nós mesmas mas, guardamos os passos, a ciranda e brotamos fortes, enraizadas mais vívidas do que antes. Enchemos as nossas luas internas e as batizamos com nossas próprias alquimias anciãs.

Somos o sagrado e do sagrado, somos elementais. Curamos nossas águas internas, desaguamo-as sem mais mágoa, sem mais ilusão da dor. Elixirmos as ervas em nossas próprias clareiras d'alma. Reflorestamo-nos tantas e tantas vezes a partir das nossas raízes. Criadoras e criaturas inatas. Somos. Sou.
Lançamos nossas sementes com força e determinação. Florescemos, crescemos, nos juntamos em partes infinitas de tantas outras de nós. Nós representamos o mundo da nossa própria consagração de ser mulher. Guardamos num lugar comum, a receita do nosso saber místico e a comungamos com quem é da nossa tribo. 

Sou os meus pés descalços, minha alma nua, minha lua intrínseca repleta de muitos dizeres. A minha tinta e as minhas pedras contam a minha história. A minha memória é um livro herbário: semente da minha ancestralidade e o meu coração, sólo-fértil e bem regado. Meu corpo é rígido como árvores. E sábio, como os ciclos que as regem. Que as dizem os momentos, os complementos de cada estação interior.

Sou cada uma de nós. Somos. Somamos como uma floresta. Nossas sementes carregam o nosso poder de transformar o ao redor, sempre para o bem. Sempre para o ventre - nossa gestação criativa e terrenamente divina. Somos uma legião, os ramos e os rumos. A semente de nós mesmas, vestida de mulher.

│Samara Bassi│


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Um comentário:

Déborah Arruda. disse...

Que coisa mais linda, moça! Uma dádiva meu ser encostar no teu.

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