4.10.15

Sobre te dar paz

4.10.15
weheartit

Há tempos que debrucei as minhas manhãs todas congeladas no teu colo, só pra te ver sorrir. E eu, eu sempre sorrio junto. Me deságuo. Eu sempre fui rio, muito mais do que mar. Eu sempre fui montanha e silêncio. Sou feita de ventos que batem às minhas maçãs do rosto e me provam o gosto pleno de ser feliz do meu jeito, do nosso feitio de fazer qualquer coisa. É esse-de-dentro que nos comove e nos move sem perguntar. Que sempre nos leva além de nós mesmo. Nos traz, na verdade. Atravessa nossos corpos num ímpeto de bem dizer palavras que nunca nasceram mais livres do que nós.  

É que me acostumei a te olhar sem neuras diante das complicâncias, a te beijar sem paúras quando se apresenta o beijo com tempero de lágrimas, a te querer todo domingo de manhã. A me desempreguiçar as vontades ociosas sob a linha puxada do teu cobertor. 
Meu peito é um travesseiro farto e te aconchega desperto, ainda, daquela noite mal dormida, amanhecida no tapete. 

A sede não está na pele que trinca de rachaduras maltratadas, mas nas digitais quase sempre não reconhecidas da sua própria identidade.

As pessoas desacostumaram a cobrir de gestos bonitos os caminhos do corpo, esqueceram de manter bem ventiladas as arestas d'alma e por isso, reclamam tanto por não se sentirem vastas na própria paz, quem dirá na do outro.

É, e hoje é domingo! E sempre cantam que 'domingo é pra te dar paz'.  Mas, a paz eu mesma cultivei e te ofertei num buquê, não de flores, mas de espinhos que é pra não se esquecer que o bonito pode estar em qualquer coisa que também fere, ou pretende. A paz, na verdade, está no teu olhar pra dentro, no centro, no meio. Está breve, no canto das tuas mãos.

A minha paz está na paz que eu te dou. Te doo. Está até na paz que me dói, que me rói, às vezes, de tanta inércia interior.

Sobre a paz que te darei, ainda, tenho muitas folhas em branco pra rabiscar hipóteses e teorias pra gente desfazer, também. Inventamos a nossa própria guerra, ainda, no meio da nossa paz. Te tenho uma lista longa de crenças pra desmitificar enquanto te ouço 'cricrilizar'  e, entre um som e outro, enrolar os pelos do teu peito na ponta dos dedos.

É dessa paz que nos conhece tão bem, que te falo. É dessa paz sem pretensão que te dou e que na verdade, é a mim mesma que alcanço — nossa paz vestida de amor, em qualquer tom de branco, ou não. 
Eu, como já disse, prefiro o seu tom de azul. A nossa paz, o nosso azul-castanho.
Já não era de se estranhar!

│Samara Bassi│

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