10.10.15

O meu quintal é o meu templo

10.10.15
'Tudo se decompõe para, depois, formar ou reformar algo. E assim foi, desde a (re)criação de tudo o que conhecemos. Poucos entendem. A grande maioria se perde na plenitude de suas mentes egoístas. Esquecem de pensar com a alma. Mal sabem que quem voa é a alma, 
e não um corpo dotado de asas. Um pássaro é assim, 
só voa porque é liberto.' 

© samara bassi
Há de se saber e sempre foi assim de que 'o nosso templo pode ser e estar em qualquer lugar' e, dentre tantos outros lugares, dentro ou fora de mim, o meu quintal é o maior deles. Nele está o meu melhor e me faz ser melhor. É dele que vem a minha construção, a renovação e muito aprendizado, sobre humildade, inclusive. Nele existe a troca, a moradia, a simbiose energética. Ele comporta ainda, muito mais que a minha observação diária, mas as pequenices que também são importantemente grandiosas. E extraordinárias. É nele que encontro-me fora de mim, mas nem tanto, pois quando me conecto a ele é a mim mesma que estou centrada. No meu templo existe o respeito e sim, a gratidão por tudo o que ele me devolve.

Mas, entenda:  não falo de nada absurdamente rico ou luxuoso, muito pelo contrário. Falo é de coisas valiosas pro coração da gente e, entre riqueza e valores, há de se notar uma ponte extremamente comprida e instável. Antagônica, até. Falo das rusticidades que se mostram tão delicadas para olhos hábeis de sensibilidade e mediastinos abertos, livres por um sopro de ar bem morado no perfume das laranjeiras e das flores de jabuticaba. Mas confesso que as de lavanda são as minhas preferidas.

Talvez ele seja o meu lugar no mundo. O meu coração está ali, em cada canto, em cada flor, em cada planta. Em cada passarinho que nasce, em cada passarinho que canta. A minha mente está nos olhares que ela capta — dos assustados e arredios aos que se chegam querendo uma parte do que me compõe.

E eu doo, não dou. Ofereço ainda, é um punhadinho de sementes para quem quiser também germinar, principalmente, por dentro. É esse o solo-fértil-coração que se percebe cultivado tanto em minhas palavras.

Lá, também aprendi que mantras são mesmo os murmurinhos que escapam pelos serzinhos de bicos e penas.
Que os besouros, com seus corpos avantajados, sempre nos provam de que podem ir além. Formigas se ajudam, Um broto que estoura faz sem saber, a sua saudação ao sol, à vida, ao recomeço.
E por falar em recomeços, tem também aquele  do findar sem medos, sem lamentos e com sabedoria: o da terra de compostagem, dos ciclos, das transformações.
Das lagartas às borboletas.
Da natureza à nossa própria.

© samara bassi

O meu quintal é também trabalho, pois é no garimpo atento do olhos e das mãos que coleciono a matéria-prima para as minhas criações, as minhas inspirações. Dele vem quase todos os recursos para a confecção das minhas peças. Assim como de outros caminhos, sempre que me permito percorrê-los.

Ele, é também, quem me abriga e me recebe, num dia de sol, de chuva a contemplar-lhe.
Passo horas sentindo seus aromas, suas cores vibrantes, o corre-corre dos passarinhos. O meu quintal induz o meu estado meditativo, fortalece a minha filosofia e conecta-me a minha espiritualidade. É ele o útero da minha criatividade. Gesta-a e alimenta.

Manoel de Barros sempre esteve certo quando disse que "o meu quintal é maior do que o mundo". O meu, onde cultivo todas as minhas preces de bem-querer. Adubo-as com o coração. 

É um lugar que acredita em mim e onde me transformo, todos os dias, para melhor.
Desejo que eu também melhore quem estiver comigo.

│Samara Bassi│

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