22.8.15

O parto do verso

22.8.15
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Sangrei a palavra num beco de dedos como quem pari e expele a placenta do verso, um universo do caos. Caótico estilhaço do ser que me finca nas têmporas as tuas grades prisioneiras e de caligrafia vadia, verborragiei. Então, que me despi sem pressa das vogais comportadas em consoantes desatadas na palma das mãos, calejadas de lapidar o verso. Desvirtualizei o parto até que me apartasse de ti, as nossas línguas endiabradas, compreendidas em qualquer idioma.

Tola é a página respingada de nada, nas entrelinhas das minhas pernas, o reflexo-ventre desacordado como caneta que repousa na borda lasciva do tinteiro, esvazia-se, sem dor alguma. Meu demônio é anjo e exorciza-me de todos os santos que não me saibam ler. Que não me saibam traduzir em dialeto comum.
Que não me gestem na escrita, toda composição umbilical.

Ereto e certo tom foi dado, como quem embrulha um-pardo-céu-de-ontens e debruça as costas para lhe devorar a carne. A minha palavra pulsa e geme, aos ouvidos breves das suas. Faz alarde monossilábico. Indicionável!

Porque a fome é analfabeta. 

Escorre e corre o texto na ponta da língua esse gozo letrado e metaforicamente enraizado, no ato, qualquer laço inverso de se fazer dizível, visível. Guardado de signos. Indizivelmente indivisível do resto sangrado nas cartas, qualquer vestígio de verso lido por uma cigana, nas (entre)linhas da minha mão, são estrias no papel.


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Um comentário:

Crônicas de Areia disse...

A sensação, ao vir aqui e ler este texto, é a mesma sensação de voltar no tempo. Quem sabe seja loucura afirmar isto, não é? Ainda mais tal coisa vinda de mim, um cético dos mais birrentos com relação a tais viagens.

Mas o que foi isso que senti? Essa doce aragem que me assoprou os olhos, me fazendo versejar letras na boca, letras essas que sequer existem?

Ler teu texto foi como passar vinte anos e, de repente, olhar para o filho e ver que ele cresceu, atendeu toda e qualquer expectativa, e se transformou em alguém que, de amparado, passou a te amparar. É como ver que meu caminho foi cumprido, minha tarefa executada e, agora, vou poder aproveitar os frutos daquilo que plantei.

Quer saber, menina? Me sinto um pouco pai, ou avô, desse texto aqui, pois ele, além de carregar teus cromossomos, carrega os meus também. Seria pretensão demais eu dizer isso? Talvez sim, pois ele foi gestado dentro do ventre de sua criatividade. O óvulo, com certeza, é teu. Ah, mas tem um rabicho de espermatozoide meu aí, isso tem.

Digo mais. Tem um sorriso pra lá de orgulhoso nos meus lábios agora, pois a cama em que esse teu texto foi concebido foi... a minha. Mais pretensão de minha parte? Deixa eu viajar mais um pouco, deixa?

E como todo filho, esse teu texto nasceu para ter vida própria, e no devido tempo, ele criou asas e foi pro mundo.

O que carregamos nessa vida, é a agregação de toda a matéria biológica de nossos ancestrais. Isso, claro, é num nível celular, mas podemos dizer que a gênese de um ou mais das nossas criações está aí, toda impregnada nas tuas palavras.

É claro que não escrevemos a quatro mãos, mas quem disse que não viajei um tanto lá pelos teus devaneios, de um jeito bem nosso, quando você tão bem teceu essas linhas lá pelas minhas paragens?

E quer saber? Essas palavras são lindas, e deram a feição da mãe para a composição. Linda, assim como você, e somente como você sabe ser.

Diz você que "...o querer e a realização parecem os extremos de uma ponte e para muitos, há um abismo entre eles.", mas para nós, esse abismo foi apenas um exercício para aumentar ainda mais a vontade que separa a o "querer" da "realização". Para nós, não há hiato que uma ponte de palavras bem gestada não possa superar. E caso a ponte não possa ser construída, sem problemas. Escalada também é um ótimo exercício a ser feito, não é?

E para comemorar esta sua publicação, trago lá daqueles sinos sisudos a mensagem que deixei pra você, e que, por fim, se completa aqui, fechando outro dos nossos ciclos. Grávida de palavras, naquele dia, você estava. Entendeu agora quando eu te falo que sou "um pouco bruxo"?

"Então, eu rezo.
Então, te desnudo o corpo.
Então, exorcizo teus demônios.
Então, invoco meus desatinos.
Então, te penetro ereto, reto e profundo.
Então, te conjuro em jorros de tinta transparente.
Então, rente, você sente.
Grávida das palavras você está.
Nascerá verso.".

Minha Samara, minha menina linda. Te amo, SeMpre amei e SeMpre amarei.

Marcio

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