18.8.15

De azul entardecido

18.8.15
© samara bassi

Veste de vento teus gravetos longos de tempo sobre a minha cabeça. Passei a tarde toda ouvindo tuas histórias desembrulhadas de flor. Desconfiei que o relógio é um cantinho esquecido numa esquina qualquer e isquêmica do coração e então, te ancorei no olhar todas as tuas idas. Não, não me infartei de ausências. A presença de algo rasgando a cidade sempre distraiu o meu olhar.
Não sou de debruçar meus cílios em qualquer lugar e minha retina só guarda o que me tocar mais fundo. Ah, guardei um punhado de mundo por dentro dos sapatos e fui, à passos largos e cheios de pó. Fui só, como é de costume eu ir àquele lugar. Lá, meu refúgio é um lago de poça d'água. Não havia água, não havia lagos. As poças eram mesmo de olhos tristes. Olhos de quem tanto se faz dizer por tão pouca palavra. Frases, ali, estendidas no chão.

Um banco, um bando de pombos famintos de amor na praça, já é o bastante para compor sua canção mais livre de preconceitos. Se debatem por farelos e avessos a solidão, homens e suas sombras me contam que lágrimas são migalhas de pão de quem não voltou pra casa e, qualquer asa é uma afronta aos que se mantém presos nesse concreto em ebulição. Não são mendigos de sonhos, mas de realidade.

Meu peito não se encheu de ar por um mísero segundo.
Há em meu mediastino uma pausa de eterno que nenhum vento preencheu. Há o tempo de não se ir com ele. A sua morada é aqui, por dentro, entardecido de azul e sol — um arrebol de histórias plantadas diante do meu olhar.


[que não se esqueçam das regas, porque, toda história tende a florir].


│Samara Bassi│

© 2015. É expressamente proibida a cópia parcial e/ou total não autorizada de qualquer conteúdo deste blog.

Um comentário:

Crônicas de Areia disse...

É incomparável o jeito como você escreve, quase tal a forma como você me provoca faíscas criativas, Sáh.

Desenhei uma praça naquilo que resta de realidade em meus inesgotáveis pingos de consciência. Imaginei pão e vinho, debruçados numa toalha estampada e esticada em meio a Praça da República.

Enfileiradas, sabiás olhavam curiosas para nós, que literalmente absortos em nós mesmos, pouco ligávamos para o conturbado caos do miocárdio sangrado da metrópole humana.

Prendemos a respiração e, ao soltar o ar (ou deixá-lo entrar) reparamos que muitos imitavam nosso gesto. Mas gestual não foi, nem de longe, um dos bisturis utilizados no ato da criação. Não, não foi. A concepção veio com gozo, e não com choro. E sabe? A sombra foi inventada antes da pedra, e quando a pedra chegou, invadiu um espaço que não era dela, mas sim daquilo que sequer tinha matéria.

A sombra não depende do homem para existir, e nem do carbono que constitui o ser humano. Quando a gente se for, a sombra vai ficar por aqui, esperando outro ser para retirar dela a luz.

Que triste sina essa da sombra, não é?

E por aí eu vou, me inspirando cada dia mais em você, menina. De onde vem tanta criatividade, moça bunita?

Marcio

Copyright - Quintal de Om © 2012 - 2017. All Rights Reserved to Samara Bassi.