3.11.14

Me serve um blues!

3.11.14
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Eu quero um jazz no amanhecer das coisas. Um solavanco bem aqui, na minha alma blues pra rimar com tudo.  Eu quero um compasso soul, um sol lá, sim!
Eu quero um sopro de sax, um acorde azul e nu colorindo as asas de uma coisa que não se desfaz.

E quando eu caminhar meus dedos batucando o ar, eu vou despir meu verso que não se intimida diante das minhas urgências embargadas em olhos ainda, calçados na rua.

Vou repousar meu esqueleto antigo na beira da tua canção e olhar pela fresta algum acorde rústico. Teu sopro me venta som e tom, melodia e letra ritmada no instante, todos os espetáculos anônimos. 

— Não, não acorde. Toca um blues! 

Que vou preencher no tom exato o mundo de quem quiser me seguir,  sem se despedir da sua tão sonora caixa acústica, torácica e coração. Minha  mão é  um aceno saltitante que repercute na ponta dos pés, todos os poemas não escritos . Todos os cânticos que não se calam e não se separam.
O amanhã é uma pedra bruta, um diamante não lapidado e minhas costas, alargam-se como um piano, pronto.

Incline a nota diante do fôlego e inspire até alcançar o norte do teu mediastino choroso.
— Garçom, me serve um blues!  Com maestria. Enquanto o inverso da cidade ainda dorme.

│Samara Bassi│

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Um comentário:

Crônicas de Areia disse...

E enquanto você me espera, com as mãos repousadas no cadafalso de uma música já quase extinta, aquela que pinta um enigma entre o sim tão aguardado e o não, que tem aspecto de um trapaceiro ilusionista preparado para fazer manha, eu danço entre postes e meio-fios, pulando de poça em poça, parafraseando cena famosa de quem já foi.

Na submissão de uma canção que acaba, toca outra, e perpetua essa ansiedade de me ver subir descalço, face ao molhado do rosto e da roupa, encharcados pela chuva que insisti em recolher em mim mesmo para te levar.

E quando eu entrar, é um solo de sax murcho, daquele arrastado, que quero escutar. Quero claves esvoaçando entre nós para, entre uma e outra, você retirar minha roupa. Serão, então, cortinas e janelas escancaradas, e a chuva molhando um pedaço do chão para que você deslize esses teus pés branquinhos até mim, até um sim, ou um não manhoso.

Dançaremos assim, num streeptease tão sensual quanto consensual, arrancando partes da roupa e palavras da boca. A luz insurgirá, rebelde que é, e se negará a brotar das lâmpadas medíocres, e brotará de nossas luas, de nossos sóis a sós, de nós mesmos.

O pelo arrepiará na contra-mão, e o chão virará teto. É certo.

E se for errado, que seja. Pois aquele que deseja, sempre almeja algo. Pecado? É. Sim, é pecado. É pecado não desejar amar de todas as formas, principalmente quando se dança um blues, ou jazz, com quem se ama.

E eu te amo, Samara. Te amo muitooooo.


Marcio.

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