5.11.14

A memória dos elefantes

5.11.14
weheartit

Calçou seu andar lento em terra batida, como faz quem peregrina  em busca de um oásis matinal. Banhou-se até encharcar a pele,  descolorindo a terra  de tuas estrias calejadas do ontem. 


— Vá, menino! O dia te busca e te chama. Te ensina. Depois, te faz retornar e me contar tuas fábulas de montanhas, meu grande menino.


Há quem saiba lhe dizer o caminho de volta às margens daquele rio que não chora nem sangra lições infantis da tua passagem. Ordene as ídas  e volte ao meio dia, baixando os olhos de lamento. Há vezes mais que estudei teus passos moldurando o caminho e lama, sem a pressa dos homens. Há lembranças de dezembro em sol a pino. De fevereiro, sob sua estrada farta, ladeada de ipês. Teu passo é longo e lento, e teu leito se verga flexível diante de toda a sua docilidade. Teu coração é a tua fortaleza. Tua força, essa colossal fragilidade que não mente as tuas tantas vidas e vindas guardadas, desaguadas como seus banhos ao sol. Olhos baixos rodeiam os montes e  estendem-se tal qual espadas defendendo teu chão. Deixei meus pés descalços diante dos teus, devotando o sagrado nivelado com o beijo na testa, menino, e toda lembrança vestida de marfim. Teu marfim que por muitos e muitos combates,  não deixaram vingar. Tampouco argumentar por indomabilidades já tão caídas por terra.


— Houve uma noite em que escutei teu choro ecoando na floresta seca. Tão empoeirada de mãos . Tua rota me levou aos teus e, guardando migalhas que pousadas dia após dia num chão pisado de ontens, não reviveram tuas aves domadas diante de nós. Lembra-te dos versos que não compus! Ouça as preces dos teus pequenos, sem o esquecimento. Não, não há esquecimento para ti e nenhum gesto se nasce em vão.


Desde então que debruço todas as minhas tardes sonhadas no teu lombo cansado em busca do que já se sabe, sem revidar. Me conta histórias e também sabe que, alarde é o veio d'água que não molha teus pés e tua sede não mata. Que não te benze no improvável, teu eco calado de dor e correntes.
Lembra-te, então, dos açoites fincados pelo caminho tão farto de nada, que tuas pegadas nada mais fizeram do que guardar caminhos pra volta do teu memorável arrebol de inércias, ainda tão cultivadas no ríspido, no hostil — lembranças ensolaradas de tempo, calçadas de pó. Uma querência que arde na iminência da volta pra casa: teu chão bruto-inesquecível. Há de chegar sem ter ido, sem ficar dolorido, sem lutos no teu coração de rei. 

│Samara Bassi│

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Um comentário:

Crônicas de Areia disse...

"Lembra-te dos versos que não compus!"

Lembrei daquelas batalhas não lutadas, e sabe, sinto que perdi essas brigas. São batalhas ignoradas pela alma, mas que de algum jeito, deixaram para trás algo pelo qual eu não briguei.

O marfim saiu intacto dessas guerras sem combate, mas de que valem? Marfim belo não é aquele entalhado e polido, enfeitando um prateleira. Esse marfim conta somente uma história: aquela em que se arranca o marfim, abatendo-se seu portador com um único golpe, e convenhamos, isto não carrega beleza.

Marfim belo é aquele marcado pelo tempo e pelo som da batalha, lascado pelo impacto contra aquilo que te ameaça. E assim, se ele ainda está em você, é porque, no mínimo, você sobreviveu. E se ganhou a briga, então a marca te lembrará que a dor sofrida durante a batalha foi o preço para se continuar adiante, mas assim, você pode continuar.

Sam, minha menina. Você dá um verdadeiro show com estes teus ensaios. É de me deixar constrangido de vir aqui e deixar palavras tão simples diante de tão densa construção.

Confesso que aportei semanas por aqui, lendo e re-lendo, até tomar peito e coragem para comentar. E sabe? Comentei sim, mas sem ter a total compreensão do que li. Esta é uma daquelas composições que não tem a mínima tendência amorfa. Pelo contrário. Cada vez que se l~e, ela toma uma forma diferente. Presta-se atenção a uma vírgula que se havia engolido na leitura e pronto, tudo muda.

Fantástico.

E quer saber mais? Te amo assim, com toda essa fartura de criatividade que nos toma e nos envolve. Você é minha vida.

Marcio.

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