14.11.14

A importâncieterna das coisas desimportantes

14.11.14
Para Manoel de Barros,
© samara bassi
Seguia sempre a carreata de formigas pra descobrir seus segredos de escoteiro. De gente que carregava no bolso um punhadinho de fundo de quintal e era sim, muito feliz por isso. 


[ah, e tem tanta gente que ainda é. Eu sou.]


Olhava os pássaros cantarolando suas manhãs sem pretensão de quem riscava o céu de giz com seus brinquedos de palavra.

Mais que aprender, soube ensinar a maestria das coisas desimportantes pro coração de menino que se alargava sempre como uma asa, prestes a imaginar o próprio voo — uma alegria essa, desimportante pra muita gente.

E eu, eu me misturei na sua brincadeira e quando me dei conta, também já estava lá no dedão do pé do fim do mundo, conversando com as frestas vazias e tortas das árvores.
Passarinho era brinquedo sério porque sempre nos trazia recados de Deus, um tal de amigo mais velho, daqueles que preferem mesmo a vastidão do vazio pra colorir, que a imutabilidade do cheio.

Ora, se somos um rio pelo avesso das coisas que tantas vezes nos noturnam ou entardecem, que façamos da noite uma caixinha de música, onde os grilos e sapos ensaiem suas cantorias em nossos ouvidos sorrateiros e os vagalumes, enluarem os caminhos noturnos da nossa retina. 

— Eu que insisti em versos catados no chão, brotei poesia com pequeneza que ainda quase ninguém vê. Bem, eu nunca levei água na peneira, Manô, mas sempre entendi muito bem tudo sobre o 'nosso quintal ser maior do que o mundo'. Essa intimidade com as coisas que não são coisas, ensinam às nossas percepções outras frequências e aparelhamentos, além claro, dos para gostar de passarinhos — o meu preferido, confesso.

É que coisa miúda é mesmo gigante de habilidades e toda pequenice desatenta também são 'bens de poesia'. Obrigada por me ensinar.

│Samara Bassi│

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2 comentários:

Déborah Arruda. disse...

A sensibilidade só se dá, dói e doa aos peitos raros, Sam. Obrigada porque agora eu estou chorando de um jeito bonito.

Um beijo!

Crônicas de Areia disse...

Pela primeira vez, senti a necessidade de me calar em um comentário.
Um ano triste, onde a ausência torna-se a maior presença. Ausência de tantos, mas de um em especial. Que se vá logo esse ano fatídico, pois só o que ele soube trazer foi a marca da saudade, e em vários sentidos.
Foi preciso aprender a desbrincar, para com isso, lagrimar os olhos. O engraçado é que um certo mestre havia ensinado a lagrimar os olhos com felicidade. Creio eu, no entanto, que ele jamais pensou que iria ensinar o inverso também, e justamente com sua ida.

Linda homenagem ao Manuel, minha querida. E palavras tão doces só poderiam ter partido de você, Sam.

Amo você, minha menina linda.

Marcio.

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