26.6.14

A não vã fisiologia das metamorfoses

26.6.14
mundo psicodélico
Não, não leve sempre e apenas por esse lado: o da filosofia. Mas o da fisiologia, também. E quem sabe essa fisiologia metamorfósica, também não seja uma filosofia vã?! A vida e todas as suas transformações ainda me remetem a um tratado filosófico, muitas vezes de origem duvidosa, onde ninguém está certo e ninguém está errado. Todos somos e carregamos também, nossas teorias-nada-a-ver. 

É sempre o que digo:
— onde está Deus, na verdade? Eu falo Deus, mas me refiro a qualquer outro nome que isso tenha. Manifestação, fé, crença, filosofia, qualquer nome.

Não podemos nos podar com tolices egocêntricas acreditando que a nossa verdade é a 'única salvação' porque se pensarmos assim, já estaremos perdidos!

Cada um, tem o seu direito de crença, seja ela o 'absurdo' que for para olhos alheios e até para ele mesmo. Não importa. O bonito de se ver é a manifestação democrática também nas opiniões, nas crenças, na fé. E principalmente a crença na natureza e/ou no Universo, se assim for. Não é preciso ter religião para acreditar em algo. Até o não acreditar é acreditar. É uma escolha, uma crença depositada vamos dizer assim, na 'criatura'.

Mas, se somos criaturas e somos também criadores., o que somos, afinal? Será que precisamos ser algo isolado de todo o resto para ocuparmos (mais) um lugar além de nós mesmos? Não, né?! Sem dúvida que somos e estamos interligados a tudo nesse planeta e não é bobagem dizer que fora dele, também.

O universo inteiro é um grande 'ovo mexido'.

Tudo na vida se transforma, desde a biologia e toda a fisiologia até mesmo um conceito mais espiritualizado como visões, paradigmas e habilidades que vamos aprimorando e até abandonando para a melhoria de outros. A própria natureza tem seus artifícios pra se manter intacta, ainda que arranhada, pra se manter viva, ainda que esteja na sua maior hostilidade.

Tão verdadeiro é o trecho de uma música interpretada por Marisa Monte: ♫'chuva também é água do mar lavada no céu'♫.


[será que eu desenho? rs]


Tudo que nos compõe veio de algum lugar e irá pra algum lugar, independente da proximidade em que a transformação aconteça, ou não. As distâncias, na verdade, não são empecilhos pra nada que queira se transformar em proximidade, em si mesmo e também no outro. Somos o outro e o outro também está em nós. Num ar que ele expirou, no alimento que consumimos e que somos consumidos, posteriormente. De quê se alimenta um recém-nascido senão de uma magnifica alquimia que o corpo de sua mãe elaborou, desintegrou e construiu?

Somos desde um grão de areia a uma nuvem sem destino.
Somos energia, água, ar, fogo, terra. Somos matéria-prima e dela somos 'irmãos'. Somos tudo que o mundo preenche e também o vácuo. É muita prepotência acharmos que o universo inteiro só se renderia aos nossos caprichos e que, sermos os únicos a ocupa-lo de forma 'vip' seria mesmo muito desperdício de espaço.

A energia que toca a pele de cada um é exatamente a mesma que move cada verme que consumirá um ser após sua morte para, com isso, reverter aquilo que se pensa “morto” em energia novamente. Enfim, tudo é reaproveitado, até a baforada de gás carbônico que expelimos após o ato da respiração. Somos reciclados para proporcionar energia a tantas outras formas existentes neste mundo.

Se eu acredito em reencarnação? É claro que sim. Acabei de descrever justamente isso no parágrafo acima. Sempre que a natureza retoma sua propriedade sobre cada um de nós, ela tece seus protocolos e reenvia nossa energia para as matas, para os rios, para o solo.❞ │Marcio Rutes│

Eu adorei essa parte em que o Marcio atribui a essa 'metamorfose', o sentido de reencarnação. Não havia pensado por esse lado, utilizando esse tipo de conceito.

E quer saber, tal verdade também está certa! Ocupamos um corpo e num dado estágio, ocupamos outro. Ou, o quê se tornarão todas as reações químicas existentes e ebulitivas a todo instante, senão a de transformar?

Veja bem: ocupamos um corpo generalizado chamado planeta e também somos ocupados ou, onde moram nossas bactérias, micro-organismos patogênicos ou não, senão num universo só deles, chamado corpo, humano ou outro tipo de ser? Oferecemos estadia, permanente ou não, dependendo do hóspede.

O nosso próprio corpo se renova e se reconstrói a partir da sua autofagia. Da reabsorção celular e da decomposição de elementos, também de outros, para formar os seus.

Podemos dizer que somos tanto diamantes quanto grafites. Somos, diante dessa hipótese, um emaranhado de cadeias carbônicas que se rearranjam e se condensam, dando forma, cor, textura, propriedades a tudo que se torna vivo e tudo que também não mais é. Mas que pulsa de uma outra maneira e permanece, ainda.

E dessa teia magnífica, onde todo o macrocosmo é entalhado no microcosmo: elétrons, prótons e neutros que constituem os átomos, que agrupados constituem moléculas, que por sua vez as substâncias/matéria, que constituem as células, que por sua vez geram tecidos. Esses tecidos com funções semelhantes constituem os órgãos, os órgãos formam os sistemas, os sistemas o corpo humano/qualquer indivíduo - famílias - comunidades - populações - bairros - cidades - Estados- países - continentes - planeta - sistemas solares e entre outros.... e porque não, o próprio vácuo do universo?

Tudo se interliga por uma semelhança, por sintonia, por programação. Veja um exemplo que te acompanha dia e noite e que nem se dá conta do quão inteligente é o universo do seu próprio corpo: a apoptose celular, que é justamente essa morte celular programada, quando algo não vai bem e é preciso então, ‘morrer pra germinar noutro lugar’, renovar-se.  Tudo flui por propagação. Essa é também a grande ecologia da alma.

Tudo está minuciosamente tecido, mesmo que os pontos sejam diferentes.
No final, somos mesmo é uma gigantesca colcha de retalhos. Se é que existe um final, já que a todo instante tantos outros estão se juntando a nós e de nós estão se afastando, morrendo, transformando-se.

Porque inanimados, ou não, seremos sempre recicláveis. Assim como o copo plástico que já fomos um dia.

❝Nada se perde, nada se cria. Tudo se transforma ❞ ― Lavoisier.

│Samara Bassi│

*texto inspirado na obra 'Reciclando a própria existência', de Marcio Rutes em CRÔNICAS DE AREIA. Os trechos aqui reproduzidos, foram autorizados pelo autor.

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Um comentário:

Crônicas de Areia disse...

A grande diferença entre a crença religiosa e a ciência, pelo que percebo, é que enquanto a ciência busca elementos de comprovação, a crença religiosa ainda vive de especulação. E quer saber? Nenhuma das duas vive, ou viveu, plenamente dentro dos padrões de ética que seus próprios praticantes criaram.

E a ironia disso tudo é que a própria ciência, severa em seus padrões de aceitação, e proprietária daquelas verdades ditas “comprovadas”, viu e vê essas mesmas verdades germinarem de conhecimentos... empíricos. Ou seja, a própria ciência só existe se antes dela existir uma dúvida não científica mas que se baseará na observação e no conhecimento sensorial. Enquanto isso, a crença religiosa se apoia em conceitos arcaicos e parábolas que já não sustentam as dúvidas que a ciência tanto confronta, mas que continuam alimentando a necessidade de se pensar que após “o sofrimento que se passa em vida”, teremos um paraíso como recompensa. Ou um inferno, para piorar ainda mais.

Mas, está errado tentar utilizar, ou sustentar, essa crença de “céu e inferno” para se tentar acalmar os ânimos dos seres humanos e colocá-los num caminho mais espiritualizado? Sim, está.

Basear um armistício numa mentira é quase como se estivéssemos deixando um convite prévio para a próxima guerra. Ou talvez seja o reforço daquele velho chavão: "os fins justificam os meios". Será? Não temos, então, o direito de conhecer as poucas verdades de que se tem conhecimento? Se é que elas existem. E isso acaba deixando alguns um tanto decepcionados, enquanto a outros, abre a perspectiva de iludir a muitos, explorando-os com histórias que perduram por dezenas de centenas de anos. Outra parcela parte em busca de suas próprias explicações ou especulações. Se consegue algo com isso, é outra história.

Neste momento, estou muito mais aberto aos padrões das verdades científicas. O ceticismo ainda não me tomou como um todo, mas tenho hoje a necessidade de me apoiar em verdades mais palpáveis, e não na mera ilusão de que um dia eu posso ser premiado se não pecar demais nesta vida.

A imposição de conceitos e teorias, como aconteceu durante centenas de anos por parte das organizações religiosas, nem sempre (nunca, na verdade) é benéfica. Principalmente quando se tenta enfiar goela abaixo uma linha histórica não comprovada, com suas regras divinas e sistemas de premiação e castigo e, em contra-ponto, também se diz que todos temos o direito ao livre-arbítrio. Hoje esse tal livre-arbítrio até pode ser exercido, mas antigamente, todo aquele que tentasse arbitrar suas crenças e ideias, até poderia fazê-lo, mas logo depois seria queimado numa fogueira.

Não terei espaço para expor aqui tudo o que penso sobre o que li. Por isso, concebi a série “EMPÍRICA MENTE”, onde juntei outros dois ensaios, e para onde levarei este comentário aqui, com o objetivo de desenvolvê-lo e expandí-lo. Obviamente, esta sua crônica/ensaio será muito bem-vinda, para compormos juntos um estudo empírico vindo de duas visões diferentes, Samara. Aceita?

Estou, literalmente, apaixonado pelo jeito como você desenvolveu sua linha de raciocínio, indo de encontro a correntes diferentes de pensamentos e mostrando que todas contém verdades e mentiras. Mas que mesmo assim, todas elas são necessárias, de um jeito ou de outro, para manter o ser humano em pé na sua busca pelo que se pensa ser “a origem e o provável fim”. Fim? Não o fim num sentido amplo, mas bem intimista, como o fim de um ciclo próprio, para o início de outro.

Não existem respostas onde não floresça a dúvida, não é?

Evidentemente, não é somente pelo teu texto fantástico que sou apaixonado, Samara. A autora me tira dos eixos, e SeMpre foi assim.

A gente se encontra, literalmente falando, na próxima crônica, menina.

Que show de crônica. Fantástica.


Marcio

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