31.5.14

Do encantamento breve que não está nas bíblias

31.5.14
weheartit
Vem do fundo essa vontade que ninguém soube explicar até hoje: a do encantamento. Não que seja teoria ou tese, muito menos hipótese de doutrina. Mas se for, então que a minha religião seja essa. Mas, refletindo cá com meus rosários-para-qualquer-flor-e-seus-botões, melhor não. Melhor não, porque não aceito bem religiões que ditem os meus caminhos e pressagiem as minhas escolhas  nem as boas, nem as más. Nunca fui de nenhuma delas, embora me entregasse sempre ao ensinamento seletivo que cada uma me foi capaz de trazer. Como assim é.  

Aceno é para as ligações internas que cultivo comigo mesma e com cada um ao meu redor. Sou de questionar e de me permitir aos (dis)sabores, aos exemplos, ao encantamento. Me permito principalmente ao desencantamento das coisas, das pessoas, da vida. Ao desencanto por mim mesma. Ao decantamento da alma, antes que as aflições me exorcizem ou me cuspam em fogueiras de inquisição.  Minhas páginas não se rendem a testamentos e a minha brevidade é menor que a quantidade de linhas dos teus Salmos. É exigente, ainda que instantânea e os meus dogmas, são todos livres. Meu coração é meu pastor, ainda que por vezes não me agrade, não me ate nem desate em bons conselhos. Então, que não me venhas com tuas palavras em rezas impostas no meu portão! Não, não que eu não vá te ouvir, não é isso. É que palavra é mais que sagrada na sua intenção que na sua própria forma esculpida, só porque assim alguém também a repetiu em teu portão. 

Encanto-me como quem constrói templos e alguns deles, são pra vida toda. Peregrino cada momento é por dentro dos olhos porque o dia corre e ainda assim, me alcança e nem sempre tem tempo de fazer o sinal da cruz. Encruzilhada pra mim, é abraço cruzado na frente do peito e atrás das costas e ainda te digo mais: (me) protege mais que talismã. Me fortalece porque me recebe no outro, quando é tudo coração. Minha brevidade é um encanto pousado na flor que em horas se transforma em um resquício murcho sob o sol de meio dia, é passarinho voando sem pressa de querer pousar nem voar mais longe, porque é o livre arbítrio também da sua escolha de bem ou mal querer o próprio voo. É contorno de formiga cirandeira na folha da roseira, é não ligar pra ser ou não ser. 

Serpentes não são vingativas, elas são instintos sobreviventes da natureza. As pessoas é que são, enquanto eu aprecio, encantada, o sabor afrodisíaco das maçãs. Heresia? é somente a minha consciência que me dá sermão, que me tira a mão ou que me atreve ao gesto, enquanto que pecado mesmo é um dedo-pseudo-juiz-do-juízo-final apontado pra qualquer direção.

O meu encantamento é asfalto quente borbulhando em passos que grudam como quem não quer passar sem ser lembrado, sem deixar marcada a sua história num pedaço de chão. É natureza refletindo na janela cuspida de orvalho, de lama na porta do carro que não soube esperar demais. É de quem soube me aprender sem me prender. Sem me corromper em apocalipses egocêntricos. É meus olhos nos teus, por qualquer razão, inclusive a de te ouvir, quando tu vieres ao meu portão. Feitiços? as bonitezas nos hipnotizam diariamente e são tão simples que até nos esquecemos. Não, as bonitezas nunca se esquecem de nós. E se eu mantenho os meus joelhos no chão, é pra brincar de ser feliz. De procurar tesouros embrulhados de capim. 

E quem vai dizer que um encantamento assim não é morada? A tua criança guarda um anjo que te acompanha, mas não tem auréolas. É!  
E quem vai dizer que Deus não existe nisso tudo. Que não está em você e em mim, também?
Aliás, quem vai dizer que Deus tem um rosto só e que sua morada se assemelha a chãos e telhados de igrejas? 
Meus relógios não compõem sinos e também não badalam. É um tic-tac irritante, mas eu até que gosto.

A minha casa é minha igreja onde o meu quarto guarda um terço da minha própria construção. Meu acampamento é capela. O chão do meu quintal é meu chão sagrado. Não esconde ouros, nem dízimos. Pode não te dizer nada, tampouco sobre (meus) encantamentos que nele fazem novenas, fazem histórias, criam suas próprias novelas. A minha palavra não é santa nem tem pretensão de ser. Mas é para mim, um tipo de prece poética que abençoa o meu senso interno de humanidade.
É!

E quem vai dizer que a minha bíblia não é válida, só porque não cabe em minhas mãos ou que a minha fé é nula porque não acompanha os seus conceitos?
Quem vai dizer sobre o que não está escrito? 
Dito pelo não dito, bendito é quem condiz com o próprio coração. E o meu Deus é um sujeito bem encantador, viu?!

│Samara Bassi│

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5 comentários:

Déborah Arruda. disse...

Ai, Samara, às vezes parece que tu me abraça!

Crônicas de Areia disse...

Dogma: Ponto básico de doutrina religiosa, considerado certo e indiscutível.
Por que? Quem disse? Quem afirmou? Quem demonstrou por “a+b” que isto ou aquilo é uma verdade incontestável?

Eu temia este momento. Tinha medo que ora ou outra precisasse dar minha opinião sobre um tema tão polêmico e DISCUTÍVEL. E, sim, tudo aquilo que não é demonstrado por provas cabais É DISCUTÍVEL.

Tudo o que sabemos das origens do universo, de seu tamanho e complexidade, é ainda muito pouco. Deus? Sabemos menos ainda. Ele criou o universo? quem sabe, sim! Ou talvez tenha sido um superior de Deus quem fez isso. Ou, quem sabe, tenha sido apenas uma explosão de matéria que andava solta por aí, compacta e doidinha pra espalhar poeira pelos quatro cantos.

Não, eu não carrego nenhuma religião comigo, mas sim, eu tenho minha crença. E ela é forte e concisa, mas completa e progressiva. Ninguém dita a mim suas verdades. Pode discutir e opinar, mas impor, isso jamais. Quem impõe, tem medo de discutir e descobrir que suas verdades são as mais pecaminosas mentiras. Não venha a mim senão para acrescentar. Mas acrescente sem me obrigar a nada, pois senão, te esconjuro e te expurgo para as profundezas não dos teus infernos, mas dos meus, e estes, estes sim te consumirão. Lá, nos meus infernos, habita o mal do meu lado bom, e ele não é nem um pouco complacente com inquisições ou imposições.

É, eu questiono. Mas sem jamais profanar ou macular “ideo-crendices” de ninguém. Cada um tem o direito de acreditar naquilo que bem entender. Mas, o poder do desencantamento é extremamente maior em mim do que aquele do encantamento. Isso eu posso afirmar.

Não me atenho a livros sacros e editados a bel vontade daqueles que um dia inquiriram bruxas e meretrizes. Aliás, quem as considerava bruxas, poderia afirmar que elas realmente eram tal coisa? Que mal elas cometiam? Ou, quem sabe, elas eram unicamente pessoas que queriam ter a liberdade de acreditar naquilo que bem entendiam e, assim, colocavam em risco o espúrio domínio de algo e “alguéns” que se julgavam acima do julgamento terreno?
Na realidade, o que queriam com esses julgamentos, era espantar toda e qualquer ameaça que se aproximasse de uma hegemonia estúpida e porca, conseguida pela imposição da espada e das fogueiras. E as mulheres e homens que não se dobravam a isso, eram acusados, condenados e queimados.
Foram esses mesmos carrascos que editaram as “páginas sagradas” que tanto querem impor a tantos.

continua...

Crônicas de Areia disse...

...continuação

Meu coração é meu guia, mas não me pastoreia. Sou rebelde, e vira e mexe tenho alguns perrengues com meu coração. Ele vai para um lado e minha consciência para outro. Mas se encontram em alguma encruzilhada. Talvez naquela mesma onde macumbeiros e tocadores de jazz já fizeram tantos e tantos pactos com espíritos, ou onde o carro do padre ou do pastor furou o pneu, ou até mesmo onde algum anjo despencou do céu.
Encruzilhadas foram feitas justamente para isso, para encontros e re-encontros. Costumo encontrar a mim mesmo nessas encruzilhadas. Gosto delas.

E é justamente o livre-arbítrio quem me permite visitar encruzilhadas, templos, igrejas, santuários, oráculos, prostíbulos, cemitérios, ovnis, crenças e ideologias, bocas de fumo, casas de família, céus e infernos, ser bem recebido e sair sempre ileso.
Sim, tenho minhas críticas a cada um desses lugares, mas respeito a cada um, desde que o bem sempre se sobreponha à maldade. Este sim, o princípio do respeito, é a minha bíblia.

E que engraçado, não é? O simbolismo sempre foi utilizado como uma arma poderosa na doutrinação dos ateus, dos hereges, dos pagãos e de tantos outros.
Alguns simbolismos tornaram-se clássicos, e perseguem o imaginário popular até hoje, como a coitada da serpente, que foi justamente quem corrompeu Eva, a primeira mulher.
Primeira mulher? Eva? E Lilith, onde fica nisso tudo? Não teria sido Lilith (segundo as próprias crenças cristãs) a primeira mulher, antes de ser transformada na mesma serpente que corrompeu Eva? E essa ação de Lilith, já em forma de Serpente, não foi justamente para abrir os olhos de Eva, para que ela enxergasse que não precisaria ser uma mera coadjuvante no mundo? Uma simples e descartável serviçal de um mundo idealizado de forma machista? E isso, aliás, me faz lembrar de outra coisa. Se Deus é “menino e menina”, então por que diabos não deu deveres e regalias iguais a Adão e Eva?

continua...

Crônicas de Areia disse...

...continuação

Pecador é muito mais aquele que acusa, do que aquele que peca. Aquele que peca, pode se arrepender e consertar seu erro, mas aquele que aponta o dedo, e não ajuda em nada na correção do mesmo, não passa de alguém que quer ver o circo pegar fogo.
Acusar é fácil. Ajudar, é outra história. Isso não é pecado também?

Meus joelhos se dobram sim, mas para beijar a barriga de minha mulher (e para algumas safadezas gostosas também).
É, eu tenho uma mente safada, poluída que só ela, mas quem disse que ela é impura? Só porque eu gosto das sensações de tesão que são geradas pelo meu corpo, eu sou um herege? Então, me queime na fogueira, pois minha mente é um poço de safadezas.

Jamais afirmei ou afirmarei que Deus não existe. Porém, para mim, Deus não é uma entidade sentada numa nuvem, com uma barba enorme.
Meu Deus está nas forças cósmicas, que regem o universo. Está no equilíbrio. Meu Deus “não é”, mas sim “está”. E ele está em mim, e em quem mais aceitá-lo.

Meu corpo é minha casa, e minha casa é meu sacro santuário. É meu oráculo. E pela minha casa, declaro guerra se assim for preciso. Mas na minha casa, cabem aqueles a quem convido, e cabe, principalmente aqueles que amo. Porém, jamais cabem invasores.

Encerro com uma frase tua, desse teu texto espetacular, minha linda e querida, amada Samara:

“A minha palavra não é santa nem tem pretensão de ser.”.

Classificar teu ensaio? Claro.

Um renascer frenético, pulsante, de buscas por si mesma. A libertação da palavra própria.


Te amooooo, menina linda.

Marcio

Gabriela Freitas disse...

"E quem vai dizer que um encantamento assim não é morada? A tua criança guarda um anjo que te acompanha, mas não tem auréolas. É! E quem vai dizer que Deus não existe nisso tudo. Que não está em você e em mim, também?"
Me encontrei TANTO nesse texto, principalmente nessa passagem. Fé é uma coisa muito singular, não gosto de discutir sobre, a minha é a minha, cada um faz a sua leitura, não gosto que me obriguem a crer no que a maioria crê.

http://www.novaperspectiva.com/
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