3.2.14

Da tua passagem, o meu secreto inviolável

3.2.14
Christian Schloe
Rajada de vento, menino, te trouxe pra mim. Te leva de mim — tempo.
São distâncias adormecidas no fundo do peito que canções de ninar não podem embalar. São caixinhas de músicas sem bateria, exaustas de tanto bailar suas preces de aves para os que não têm asas, escutarem.
E dói. Dói um cansaço de tempo que não volta mais, de escolhas paradas numa estrada sem passo nem fundo. Sem futuro. E há tantas demolições por baixo da pele que até a poeira assentou no abismo dos poros e por lá, ficou.
Há nesse teu peito, menino sem olhos, um sonho, um canto seu no canto do mundo, em algum lugar onde se possa viver sem pressa. Morrer sem desesperar. Te digo o quão inviolável é o meu mediastino diante do seu sopro que tudo arrasta e fere tanto quanto um pássaro caído no chão mas firme, ainda, em suas asas de nuvens, com perfume de Deus.
Desistir? não, menino. Pra isso eu não tenho tempo nem paladar. Mas é preciso às vezes afundar os pés no lago morno das esperas, pra dilatar os olhos n'alguma prece sem beiradas. Nesse peito sem alças de uma nova construção, ainda. E seguir.
Há gavetas submersas nas lágrimas de outrora e há uma aurora desapontada na curva de tanta tez amanhecida e dormida com sol.
Nessa aura ainda sei despertar o que nunca adormeceu sem acreditar no novo, no recomeço, na luta. E luto, sem lutos no coração. Apenas vou. Voo, mesmo sem ter asas. E me sustendo em casas sem paredes, onde pairo na liberdade de manter lugares secretos e cativos de mim. Lá, luas e estrelas cadentes se cultivam pelos olhos de quem nunca soube dormir sem fabular histórias ou cirandas de manhã.
Há tanta gente, menino, cansada de tanto se descobrir. Eu não.
Meu coração é templo e lar dos sonhos que me viram crescer. Agora sim, é a minha vez de criá-los pro mundo e então, me levarem junto.
Porque se junto na palma das mãos um punhado de senhas, dessas que criança colore com magia no seu próprio mundo como portas secretas, quem sou eu pra descolorir? A minha passagem há de ter no vão que abre todos os meus sorrisos e, ainda que lágrimas enferrujadas, composições tecidas de uma melodia só minha e um tanto quanto incompreensível pra quem não me lê, nem tampouco me sabe.
O meu secreto é inviolável. A minha história é um poema sem rosto, sem gosto definido. É estrada que não finda na próxima curva.
É ainda, a minha melhor escrivaninha de rascunhar nos cílios, vaga-lumes brilhantes e maldormidos de ontem. Mas repletos de sonhos e luz, mesmo que aos milhões de um bem querer sem par nem comparar.
O existir basta. E não mata sonha algum no tempo.
Menino, menino, você não é capaz de me embrandecer ou de me podar o verso mal esculpido na ponta da minha língua calada ou qualquer palavra.
Você, senhor de tudo e de todos, ainda é um punhado de gente que passa por mim mas não me alcança, nem me balança, me querendo cair.
E embora tão grande e inexorável a tua imensidão, é ainda o meu pequeno Senhor. E não me definha as tuas terras áridas que vez ou outra atingem os meus campados secretos. Nem estéreis os tornam, não. Não  me cabe a tua marcha. Não há lógica nem cabimentos.
Tua chuva é goteira na minha casa e o teu saber, ainda que me ensine um mundaréu de lições com o passar de si mesmo. Não me viola, tampouco me violenta.
O meu jardim é de violetas. Então, Senhor seu menino, desista você de tanto prosseguir sem pausa, sem causa.
A minha asa é a sua também.

│Samara Bassi│
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2 comentários:

Crônicas de Areia disse...

Fotos de fatos, relatos de traços traçados em papéis comidos pelas traças. Embaraços descompassados e temperados ora com muita paciência, ora com teimosia.
E a menina anda. anda pra frente, pois pra trás já não dá mais. Ela até queria, mas não pode, não é? Machuca o pé, dói a cabeça, irrita a ponta da língua de tanto brigar sozinha.
E lá vai a menina.
Ela é teimosa, tinhosa. Tem vezes que desanima, tem vezes que briga sozinha. Tem vezes que é só menina.
O rodado do vestido rodopiou e ficou no tempo. Um par de calças, charmoso sim, mas não como o pequeno vestido, cobrem hoje suas pernas alvas de mulher feita, afeita que está nessa batalha quase inglória.
Pois é, seu tempo. A menina te chama de senhor, mas eu não. Bato de frente contigo, e te desminto, te desmascaro. A gente se esbarra pelas curvas de um boteco qualquer, pra bater um papo qualquer hora, mas sabe como é, não é, seu tempo? Nem dá pra falar muito, pois ando sem tempo.
Então, menina, faz assim. Enrosca aqui, pertinho de mim. Enrosca teus lábios aos meus, e vamos sair por aí, buscando no risco do tempo aquele vestido rodado. Vamos? A gente passa lá no meu passado e empresta aquele ratinho branco. Sei que ele vai amar fazer companhia para aquela travessa que está lá no teu passado. E enquanto eles brincam, crianças que são, a gente esquece o tempo, e aproveita pra se amar assim, sem dar trela pra esse danado, que só o que sabe fazer é andar pra frente.

Que belo, Sam. Amei. E te amo, te amo, te amo.

Marcio

Antônio LaCarne disse...

Lindo texto, além de extremamente inspirador. Parabéns.

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