2.1.14

Pra tristeza não querer morar

2.1.14
ZenShui/Laurence Mouton
A partir de hoje, eu deixo as estrelas guiarem calçadas que meus passos pisarem, sacolejando as noites e outras histórias. Eu, antes de saber aceitar em abrir as portas, eu olhei as janelas e as namorei como pipas ao céu, dando linha pra essa morada etérea e tão parte minha, que me esqueci até que as pedras ainda machucam meus pés no chão. É que a tristeza, vez ou outra, é aquela visita desencantada que nos bate a porta com malas pesadas e bagagem empoeirada sem mandar pré aviso, nem riso de tempo breve. É aquela tia chata e desaforada querendo fazer da alma da gente, a sua cozinha sem cor, sem vida nem paladar. Então, que nenhuma dor há de ser companhia e nenhuma tristeza se torne hóspede em minha casa. Que a minha asa seja semblante emoldurando risos de pássaros fazendo ninho em meus ombros largos e aconchegados nessa leveza tola, mas feliz. Há chuva, tanta chuva afogando poças d'água por aí, que minha terra é ainda um verde imensurável, nessa minha aldeia de cultivar manhãs com gosto de ontem — lembranças que pulam corda e balanços de cirandar teus braços ao redor da minha cintura.
Mas antes de circular meus dedos no teu sorriso, eu flori esperanças na tua palma de mão com perfumes lavandais e a flor de laranjeira...
Ahhh que essa flor de laranjeira foi testemunha das sementes juntas que fizemos germinar!
Tem cheiro no gramado, flor colhida de sábado e pra não findar o abraço, é bem verdade que a ponta dos meus pés embranqueceram com pó de giz, os nossos rabiscos todos de desenhar a vida num pedaço de chão. Tristeza, meu bem, mora aqui não. Mora não!

│Samara Bassi│
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2 comentários:

Crônicas de Areia disse...

Demoramos para aprender que estrelas são pirilampos estelares. Ciliares feitos barcos a deriva em Antares, ou meros colares coloridos na cânfora da canastra da menina arteira. Beira assim a beirada empoeirada da varanda de cada estrada, calçada feita de pedra turmalina, ou de resina de âmbar, amparado no alpendre dos nossos olhos. E âmbar é aquele que baila e embaralha e cintura que prendo em meus braços.

E enquanto você namorava janelas, eu namorava você, te recolhia em sintonia frouxa, meio malemolente no gingado dos dias preguiçosos. Foi como garimpeiro que busquei água na mina, água de bica, da passarinhada que saracotíca, lá na botica do bom velhinho que vendia nossas “macumbinhas”. Quem sabe se “pra ganhar teu amor” eu não “fiz mandinga”?

A tristeza existe pra gente saber o quanto é bom ser feliz. Tal qual a tia chata, nós colocamos a vassoura atrás da porta, e se a coróca não se der conta, a gente já sai dizendo que vai chover, nem que esteja um sol lindo num céu de quindins e bom-bocados. Céu estrelado? Marejado então? Céu de latão? A gente toca, nem que seja com flauta de encantar bicho.

Companhia é pura reza da dança do sol. E essa, só nós sabemos o quanto dançamos. Entra ano e sai ano, e lá estamos nós, dançando e atazanando as minhocas do chão.

Que teu riso seja tua asa, e tua asa me cubra como casa, como a brasa que nos acende em noites frias, ou o arrepio que nos corre nas noites quentes. Entrementes, são nossas sementes que arquitetam arquipélagos em nossos mapas de papel jornal. Um jogral de versos enfabulados e nada encabulados.

Te engano com chuva de mangueira, fazendo verter veredas em torno da mesa encharcada, da toalha molhada no nosso piquenique. É chuva sim, mas de beijo e desejo de mão boba na cintura, aquela mesma que busca a curva do peito, pra te pegar de jeito e te cobrir carinho e desejo. Um ensejo de riso solto, fazendo cócegas em torno dos nossos nortes tão perdidos ao sul. E o céu é azul, mas podemos jogar um pó de vinho pra melhorar isso.

Palma da mão? Pulso também, que pulsa em tons de lavanda. E saiba que o adubo pras nossas sementes veio do suco da laranja com o cheiro da hortelã banhada na lavanda. E plantamos alí, em plena varanda das nossas veredas.

Tem giz branco da cor do anil, tem verde balançando igual marrom-acastanhado, num adiamantado perdido pelos tons de lilás. Fulgás sim, mas jamais efêmero. Eterno, e jamais sem estar interno.

Tristeza é fruto de beira, daquela que se esquece na cadeira quando saímos pra correr pelo gramado. Num estalo de sorriso, num riscar de beijo e num aconchegar de abraço, ninguém há mais de lembrar dessa tal tristeza.

E a gente? Nós aprendemos com o tempo a construir o nosso SeMpre. SeMpre.


Sam, que preciosidade. Que show. Adorei.
E amo esse teu jeito de ser.

Marcio

Nanda Assis disse...

Belíssimo texto querida!!

bjos...

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