12.10.13

Mas a vida cresce e a ternura da gente, também.

12.10.13
Weheartit
Olho com carinho a criança da minha vida. E com ela, levo um punhado bonito dessa saudade poética, também.
E ela, ela nunca vem só: vem acompanhada dos cheiros de grama recém cortada e rastelada pra forrar os vasos e forrar a cama onde aquele cachorro folgado deitava pra tomar sol.
A casinha de madeira e todos os brinquedos que o vovô construía. As brincadeiras com as amigas nas árvores, as aulas pras bonecas e pro mesmo cachorro folgado e confesso: tão amado Totó. Os banhos de mangueira e aquela piscininha adorável feita de uma caixa térmica de isopor, quando não era no tanque. Os esconde-escondes, as caminhadas de horas em terra batida com os vizinhos pra tomar banho de cachoeira numa biquinha da cidade e as brincadeiras de corda que faziam à minha criança, um bem danado à sua rotina. De deitar nas calçadas com um binóculos voltado para as estrelas. Das experiências malucas com os ingredientes da cozinha da mamãe. E até de uma possível explicação por eu ser tão avoada assim: de já ter almejado na primeira série, o cargo de algum astronauta.
Nos parquinhos ao ar livre, já se aprontava pra fazer arte, se pendurar nos ferros e virar de ponta cabeça.
As festas juninas, os dias sem festa, o cheiro de giz de cera, do guache e dos piqueniques no quintal com os primos.
É, a vinda da minha criança sempre me devolve a beleza dos quintais. Sim, porque até mesmo quem nunca teve um quintal, sabe a magia que eles abrigam e ensinam, muito, muito mais e até aquilo que não se aprende na escola e nem nos livros. Sem dúvida, uma cartilha sobre a construção da amorosidade. Do amor que cada animal que eu tive  me doou e que o meu, aceitou. 
E, mesmo que você não tenha tido um quintal, sabe ao menos por intuição que no quintal do vizinho, do amiguinho onde você costumava ir brincar, morava um certo paraíso. E por intuição de criança, talvez, a gente era sempre mais amiga dos anjos.
Em terra florida e com pé no chão é que a vida corria solta, como quem corre atrás dos passarinhos e topa com o dedão na pedra. Que disfarça numa gargalhada pra depois soltar o choro sem mais freio algum. A queda da árvore enquanto dormia e os ensaios de voos na balança daquela goiabeira amarela que pra minha criança, ainda não há de ter no mundo, castelo igual.
Até que chega um momento em que a vida cresce e com ela, aparece um bocado de coisa que nos tira o riso e outras... que nos devolve.
Sei lá, talvez não se tenha receita, nem fórmula para aprender e ensinar aos mais jovens como serem jovens por mais tempo.
Só sei que a minha criança vive rodeada por um punhado de risos da sua época e me chama pra brincar vez ou outra, naquele lugar secreto e bem colorido - o meu paraíso particular e que hoje é mais que um lar dentro de mim, é o meu melhor abrigo. 
O meu Reino, até.
│Samara Bassi│

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2 comentários:

Crônicas de Areia disse...

Acho que uma criança feliz deve ter sido o Venturini (o Flávio). Sim, pois aquela frase que ele canta "foi assim, como ver o mar, a primeira vez que meus olhos... se viram no teu olhar...", só é compreendida por quem descobriu mundos secretos e neles, toda a beleza que não se conhecia.

Ser criança é ser um desbravador. Pode ser criança rica e desbravar pelo video-game uma nova galáxia qualquer, ou ser criança pobre e enfeitar seus castelos no mais longínquo dos vales floridos de um campinho na beira de um rio.

Ser criança é desconhecer o medo. Não que isso seja bom, mas é que assim, o impossível quase não existe. Vez ou outra é dolorido, claro, mas criança é criança, e no dia seguinte está lá, tentando novamente. Oh bichinho teimoso a tal da criança.

Ser criança é ver o mar numa caixa d'água, e singrar os oceanos num barquinho de papel.

Portinaris, Picassos, Da Vincis e tantos outros, antes da ousadia artística, ousaram no 'criançamento". Usaram e abusaram de suas quietudes e inquietudes, para só depois dar asas para a imaginação. Mas será que se não tivessem tido infância, teriam sido o que foram quando adultos?

Quando criança, nem reparamos que uma única letra faz toda a diferença. E você escreveu, Sam. Escreveu sim. Ali no teu texto está escrito "amorosidade", que difere de "morosidade" por um único "a". Que diferença, não é? Mas se em "Saara", que é tão seco, acrescentarmos um "m", faz-se todo um paraíso, não é SaMara?

Penso conhecer um pouquinho dessa tua criança, menina. E ela é ávida por uma estripulia. Adoro. Amo.

E olha... nada de ficar dando ideia pra Clarinha. Hehe. Que show de imagem você foi buscar pra decorar esse texto fantástico. Te adorooo.

Marcio.

Denise disse...

Simplesmente lindo o passeio que tua escrita proporciona, ao teu reino infantil, Sam. Enquanto isso, vai ficando visível ao meu entendimento de onde vc empresta o ar de menina sonhadora, livre, feliz e cheia de sentimentos invioláveis que vejo deitar na beira das palavras que admiro!

Feliz dia pra essa criança adorável, que ela permaneça dando vida ao te sentir e resplandesça no teu viver!
Bjo

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