21.6.13

Quando o inverno canta jazz

21.6.13

Só é preciso que as primeiras lufadas de um ventinho mais gelado sopre em nossas orelhas e arrepie os nossos pelos assim, em qualquer dia que a vida logo se apronta e pronto, adquire um outro ritmo.

Mas, quando se sabe, se sente, se avista que o friozinho de cada ano já se anuncia, quer seja ele de Minuano ou não e se ac(onc)hega de mansinho na divisa dos meses... seis pra lá e seis pra cá, se misturando ainda em ares de outono ou do inverno recém chegado, aííííí siiimmm a percepção aguça e a vida adquire mesmo não somente outro ritmo, mas outra cor, calor e as histórias começam a saltar dos baús das bocas.

Fica outro balanço no ar, no balançar dos dias e das noites e o embalo se dá principalmente no lado de dentro da gente - Acontece muito mais além que do lado esquerdo do peito, dando uma nova cadência ao tempo.
Tudo quer estar mais perto, quer ficar mais junto e o compartilhar, além do sol, ganha mais força, acredito que em todos.
Os detalhes não passam tão desapercebidos como em outras estações e o céu azul azulzinho, ainda que o sol queime as peles e as cucas e se deite cedo... tempos assim, de friozinho, nos traz a sensação das horas passarem mais devagar, tornando tudo ao nosso redor mais sonolento.

Há uma paz morna abrigada nos ventos de tempos assim em que o inverno parece cantar Jazz.

Os animais hibernam dentro de seus próprios casulos ou nas calçadas de cimento cru, as plantas crescem mais devagar e as nuvens aparentam ser migalhas de pão.
As mãos, procuram abrigo nos bolsos das calças, nas luvas de tricô, por entre os braços de quem se caminha ao lado em ruas estreitas da cidade, praças, alamedas e banquinhos ao sol da manhã e na hora do almoço... E por mais que as luvas, cobertas, meias e casacos deixem os guarda-roupas, ainda com poeira de sonhos passados do inverno que já se foi e tragam um cheiro de mofo camuflado em perfumes doces, em tempos assim, nossos dias tem um jeito todo especial de se revelarem e se mostram ser chaleiras e bules borbulhando na chama do fogão que, se for de lenha, deixa na gente o melhor sabor que o inverno tem.

É, a vida acontece lânguida e se espreguiça em qualquer som de acorde, antes mesmo de abrir os olhos.

Lá fora, os galhos nus e as folhas que ainda restam nas árvores, coreografam um balé mais singelo e balançam em compassos aparentemente ensaiados, uma espontaneidade mais que sutil que dança pra lá e pra cá se tornando imperceptível a um olhar mais grosseiro e apressado.
Os cachecóis esvoaçam nos pescoços das donzelas as suas cores, ora neutras e discretas, ora arco-íris vivos e berrantes pra espantar mesmo o gelo na íris de qualquer olhar que passar por perto.

Em tempos assim, os sorrisos emergem quentes dos abraços e os abraços, duram mais e dividem mais calor. É de mansinho que o dia corre!
A nostalgia senta à mesa, atraída pelo perfume do bolo recém assado com o chocolate quente e a xícara de chá... Da sopinha mais à noite, as torradas e bolachas salpicadas são “crotons” de saudades que despertam e nos aquecem o corpo e as lembranças.

A madrugada pinta o céu negro com sardinhas estelares e reluzentes, saudando os que madrugam para trabalhar e ainda sonolentos, se encolhem nos bancos de ônibus para se acolher de volta nos sonhos interrompidos pelo despertador.
Não se quer mesmo acordar, não se quer levantar, muito menos saborear os sorvetes de frutas nem se refrescar nas águas cloradas das piscinas. Não se quer o ar condicionado nem o ventilador como companhia. Mas sabe-se que em tempos assim, um livro faz milagres pra driblar a solidão.
E se quer somente embalar mais um punhado de sonhos por debaixo da coberta que aquece muito mais que os nossos pés.
Se quer somente dar e receber calor, na mesma intensidade em que se quer esquecer que em alguns dias de tempos assim, a dor que se tem se torna maior.
Só se quer reunir os amigos mais queridos em torno de uma fogueira com boas conversas e um som de violão.

Em tempos assim, quando os ventos que açoitam brandamente e coram as bochechas das peles mais branquinhas, os netos ouvem histórias e os pais saem para comprar agasalhos rosas e azuis para os seus filhos que mal deram ainda os seus primeiros passos.
Se coloca mais lenha no fogão, na lareira, na fogueira e a batata, começa a assar.
Os edredons cobrem as camas onde o calor da pele dos corpos que dormem juntos já queimaram o colchão no calor de uma outra estação.

Mas agora, se entrelaçam os pés e os braços se abraçam sobre um peito que também bate mais calmo e ritmado.
Os casais dormem de “conchinha” e o cinema se faz no escuro do quarto com um dvd ou na sala do apartamento.

Em tempos assim, pare pra ouvir: as pipocas estão a mil pulando nas panelas, como criança que faz “poli chinelo” pra se esquentar na hora.

O doce preferido é feito com a receita de anos guardada no livro de receita da sua mãe e que foi passada de geração a geração.
Os banhos são mais demorados, acompanhados ou não.
Os vinhos são abertos e adoçam o paladar de um momento mais íntimo e mais (e)terno.
O amor que se faz, se faz de mansinho com maior cumplicidade... sem deixar de ser intenso.
Os carinhos e os gestos mais simples duram mais, mesmo depois que se findam e se faz planos em qualquer lugar, como numa cadeira de balanço sob o sol com um livro na mão.

Amantes são mais amigos e amigos, se amam melhor.

Em tempos assim, se caminha e se observa melhor os passos dados.
Se reflete mais no que se quer e se reconsidera coisas que já se quis... enfim se descobre que paciência e tolerância são coisas completamente diferentes, mas que se confundem e nos confundem.
Os espaços se estreitam e as geadas por entre as plantações de sonhos os tornam mais maduros, invés de queimá-los.

Em tempos assim, esperança ainda floresce, amor ainda é a melhor fonte de calor, seja ele de qualquer natureza, sem qualquer nomenclatura e... caso o seu agasalho, a sua luva ou coberta não forem suficientes, abraço é ainda o melhor cobertor pra se manter aquecido, em tempos assim, em que o frio que se espera fazer, se faça somente do peito pra fora.
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re-editado
│ Samara Bassi │
Love Me Tender by Norah Jones feat Adam Levy on Grooveshark

3 comentários:

Be Lins disse...

Quando o inverno chega com suas asas brancas e geladas, meu coração finalmente se acalma.

Seu texto é aconchegante,
fala de uma estação que é amável por nos oferecer possibilidades mais delicadas e elegantes de existência.

Ótima temporada pra você, Sam!

Anonymous disse...

texto amorosamente brilhante. Parabéns Inês.

Crônicas de Areia disse...

A moite de inverno começa a ser preparada na tardinha. Ao contrário do verão, nos recolhemos mais cedo e, assim, procuramos uns aos outros para compartilhar o calor que existe em cada um. Então, esquecendo o lado ruim que o inverno carrega, é nessa estação que compartilhamos mais, que nos aconchegamos mais, que abraçamos mais.

É no inverno que plantamos muitas das coisas que permaneceram na terra da vida, esperando para fecundar numa primavera próxima e, assim, desabrochar em florada no verão vindouro. A chuva, que se faz por vezes num par de olhos lá pelo começo das estações, no inverno acaba gelando ainda mais a terra fértil da face. E quando a chuva de lágrimas é acalentada, quem sabe ela faça brotar de forma bela uma nova cultura lá pelas campinas do peito.

E que se pense um peito nu encostando em outro, em pleno inverno. Se no verão, pensasse no calor e no suor que cola os corpos. Mas no inverno não. Esquecesse o ritmo frenético e busca-se a junção de calores de ambos os corpos. Então, o que era para ser intenso, assim continua, mas fica mais demorado, ritmado e, claro e por que não, ao ritmo de jazz. Pois é. Faz-se amor em ritmo de jazz lá pelas bandas do tal inverno. E sem derrubar os cobertores.

É no inverno, também, que as mãos frias ganham alento e acalanto. Repousam macias em outras mãos para dividirem calor e se aquecerem. As bochechas rosadas tornam-se, de vez, maçãs do rosto (em alguns, até parecem tomates do rosto), e a boca busca as mãos ou outra boca para umedecer e não rachar pelo frio.

O inverno aproxima. É nele que se busca os velhos baús para, um tanto mais tarde, se pensar em depositar muito daquilo que vamos carregando pelos trilhos da vida.

O vinho é mais saboroso no inverno, ainda mais se compartilhado.

Sam, menina que me orgulha demais. Que show de crônica. Amei. Simplesmente fantástico.
Em alguns momentos, deu vontade de sentar ao lado de um fogão de lenha e voltar a leitura lá do começo, somente para fazê-la fluir mais lentamente.
Você é espetacular nessa arte de fazer seus leitores mergulharem pelas palavras de teus textos.
Sou cada vez mais teu fã. Te adoro. Bjs.

Marcio

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