3.3.13

Itinerário para as entregas

3.3.13
Imagem: Stephen Welstead
23:45 hs. Sábado frio, quente, chuvoso. De céu aberto e estrelado. Nuvens com considerável cerração e luz de lua.
Era um céu convidativo, em todas as suas formas e nuances.
Horário que conseguiu chegar em casa, após um dia cheio e repleto de afazeres.

Ela, estava cansada e sentia-se mais cansada que o normal. Desejava somente fechar os olhos em paz e livrar-se de todo o peso que acometia o seu corpo pequeno e a sua mente (de)vasta(da), quase que completamente.
Ainda havia algum trânsito que lhe passava indiferentemente ao olhar a cidade acesa e bem movimentada pelos bares e danceterias .
Quase que mecanicamente, passou a contar as poucas pessoas que lhe passavam diante dos olhos ou que distantes pudessem ser vistas e, distraída de todo o resto, se perguntava em que elas acreditavam, sobre o quê pensavam, quais seriam os seus sonhos, os seus medos, será que tinham um amor, escondiam alguma dor... que história elas teriam para contar?

Foi um passatempo bom. Tão bom que passou do ponto!

Caminhou de volta àquela curva onde morava e mal abriu a porta, jogou tudo que carregava em um canto da mesa. Estranhamente e diria mais, de forma ritualística, sentiu-se mais aliviada quando tocou, com os pés descalços, o chão de cimento cru da sala.
Soltou os cabelos e acendeu apenas a luz da escada. Foi então que notou que o silêncio não estava só dentro dela, mas fora.
Circundou o olhar pelo ambiente, quando pode notar mais um daqueles bilhetes pousados ao lado do telefone.

- É, casa vazia!
Sussurrou.

Estranho como tudo o mais parecia esvaziar-se também... mas, naquele momento, era tudo que precisava e o que mais desejava: o vazio. Mas o vazio de fora, para que o quê houvesse por dentro pudesse transbordar e preenchê-lo.

Sentiu-se inerte num sossego sem igual que aos poucos se transformou em sorrisos internos até que alcançassem os lábios, podendo ser vistos... por ninguém (?)


[talvez houvesse alguém ali, de alguma forma, com algum jeito especial de olhá-la. Pois cada gesto seu era uma dança, daquelas que se sabe e se sente ter "expectadores". É que a presença sempre deixa rastros por dentro da gente. A falta também.]


Sentia- se bem assim, tão sozinha, tão consigo. Tão vazia e repleta de si.

Esvaziou o peito de todo o peso que sentiu carregar durante o dia inteiro, de todo pensamento e sensação triste que aquele dia havia lhe trazido.
Mais que imediatamente, desligou o celular e apagou a luz que ainda estava acesa. Não era necessário tanta luz para quem só queria mesmo era perder o olhar no próprio escuro da sala.
Um vinho cairia bem. Tão bem como fez com seu corpo, deixando-o cair largado no sofá ao som de uma música maravilhosa, enquanto acompanhava a melodia com o balançar dos pés.
Naquele momento, parecia ali ter encontrado o melhor refúgio de todos os tempos.

Estava frio e um banho quente talvez seria melhor ainda. Uma ótima opção e também um bom remédio para curar insônia.
Lembrou-se de que havia tempo que não tinha um tempo pra si, que não respeitava o seu próprio compasso, e muito pelo contrário, sempre se via às pressas consigo, com as outras pessoas e ali percebeu o quanto se precisava. E se tinha por inteira. Essa era a chance.
Havia todo o tempo do mundo e tudo ao seu redor pedia pelo melhor banho existente. Pelo “ritual” mais renovador que o seu corpo e sua mente estavam desejando e mais, necessitando.


[e se tornara tão indispensável quanto o primeiro golpe de ar nos pulmões de um recém nascido]


Mais uma vez, as velas acesas e coloridas eram a única luz que a banhava.
Mais uma vez,o incenso de patchouli era o perfume (dele) que preenchia o seu respirar.
Mais uma vez, deixou-se envolver por aquele ambiente que lhe causava tamanha sensação de bem estar à cada passo dado. Aquela atmosfera, aquele clima, tudo parecia embalá-la nos braços e ninar as urgências e a música, ainda tocava.
A água que caía sobre sua cabeça e acumulava sob os pés, quando observada, poderia ser comparada a um cristal líquido, capaz de energizar e renovar tudo o que tocasse, quando confrontada com a penumbrante meia luz daquele espaço que imitava o bruxulear das estrelas.

Ela, dançou.
Algumas lágrimas, ela chorou.
Sorriu muitos sorrisos, achou alguns perdidos, empoeirados por entre o vão do mediastino, já falho pelo dia.

Foi assim a cada toque, a cada gota, a cada nota de cada música que embalava cada canto da casa.
Foi como perder os sentidos e achá-los em um outro lugar.

E o aroma de cada incenso só perdeu o seu lugar pro perfume do shampoo no cabelo, do óleo perfumado na pele, arrepiada pelos contrastes de temperatura.
Senti-se intimamente refeita e entregue a uma noite prazerosamente renovadora e ainda inerte num efeito extasiado, foi num único movimento que expandiu o seu corpo encharcado de vontades e lembranças na cama, entorpecidamente leve.

Descansada e misturada à madrugada, Toda a paz da Natureza sem gente , veio deitar-se ao meu lado [Fernando Pessoa]
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*re-editado. (título pregresso: Cora.som)
│ Samara Bassi │
Pra hoje: 

3 comentários:

Paulo, O Turco disse...

Mamaaaaa miaaaa!!! hehe

Minha Italianinha maravilhonderful!
Minha linda, sempre é bom demais poder ler teus textos (textos?, tesouros!) pois sempre existe algo que nos alcança, que nos representa algo de alguma parte da nossa vida. Eu sou seu fã desde antes, hein! rs
É muito bom também porque relembro de um tempo bom, em que todos nós (eu, você, a mama, Cristian, o cacá...), amigos loucos, vivíamos assim tão perto e você sempre escrevia e como sempre, eu te pentelhava (de mais perto rs)

Esses dias, estão sendo dias muito felizes minha querida, pois estar de volta, perto dos amigos (não de todos, infelizmente, aproveito pra dar um puxão de orelha pra outra italiana birrenta lá da bota. VOCÊ dona Mama, caracas, dá pra dar um pulo em Sampa, por favor?! É uma ordem! rs)


Minha amiga do coração. Saudades da época dos estudos, das farras e lendo teus textos eu sempre me lembro dessa época.

Foi muito bom te rever, é sempre muito bom. E ver o quanto está mais linda por dentro e por fora, puts! (Você não quis casar comigo, né? puxa! Vai queimar no mármore do inferno rsrsrsr lembra? rsrs pirralha!)

Mas voltando, bom sentir sempre o mesmo abraço de um jeito mais forte, mais perto. Mais amigo. mais dentro.

Cada um seguiu seus sonhos e trilhou alguns caminhos como a vida foi desenhando e assim como você pergunta neste texto lindo... respondo que há tantos sonhos, segredos, amores, alegrias e também tristezas na vida da gente. Sempre haverá, não é, Sam?

Saiba minha linda. Você é uma alegria imensa pra esse Turco torto aqui. E ah, te pentelhar será sempre meu hobby mais que preferido srrs. (pena que o Cacá não está aqui pra fazermos como lá na antiguidade, te segurando os braços e um mordendo as bochechas rs)

Aqui, será um lugar pra te reencontrar quando não estivermos perto. Estarei sempre que possível por aqui.

Beijo das arábiassssssss, italianinhaaaaa! :p

beijo do Turcoooo!

brisonmattos disse...

Que bela estória!

ValCruz disse...

Ei menina! Há tanto em ti, que tu transborda não é?! Adorei Sam. Amo-te!

Meu carinho de sempre por ti.

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