7.2.13

O quanto de jardins sobreviventes há no mundo?

7.2.13
Imagem: Weheartit
Ando olhando com leveza outros quintais.
Tateando as cores, texturas, tentando compreender o porquê de estarem ali, de serem como são, de estarem onde estão. Devagar, meus cílios acenam para cada detalhe debruçado no seu (en)canto e procuram; como brincadeira de tatu bola e esconderijo, contrastes de luz e sombra. E, não se pode negar: o colorido prevalece. Até mesmo os jardins monocromáticos se mesclam nos tons. Escuto um som, um tom, um olhar mais brando conversando comigo. Eu sempre soube de que há sempre algo de amigo pousado das folhas. Vejo bolhas de sabão se romperem e chuva colorida se desfazer na próxima ventania.
Não saio do lugar, mas ainda assim vou longe. Meu pensamento é um entendimento distraído que pega sempre a mesma carona num cintilar e outro, numa paisagem e outra, em qualquer história que me conte várias formas de acontecer.
Ei, eu sei que há outros olhos também olhando meu quintal. Desvendando meu jardim.
Meu jardim sobrevivente (?).
Descanso o caminhar e me ajeito nessa aura, me amadureço nessa ideia sobre jardins sobreviventes.
Olho com carinho cada uma das minhas sementes, o que floresceu e quantas vezes floresceram depois das chuvas. Das cores, dos cinzas, das cinzas...
É, chuva também floresce!
Todo dia, todo instante há num mundo alheio às nossas flores, outras cores mais, outras sementes a mais, barulhos demais. Há algo novo e sempre antigo. Há sempre algo vívido, vivido. Todo jardim sempre há uma novidade, se para o bem ou para o mal, mas há.
Há vontades se agarrando com gavinhas para transpor limites, obstáculos. Há um mundaréu de criaturas nos tornando melhores, ou não, nos recompondo, nos destruindo, nos reconstruindo.  Somos ainda, vasos de flores, apertados, querendo transbordar. Queremos sempre renovar um olhar qualquer.
E se pararmos pra pensar, cada um é ou carrega em si um jardim sobrevivente. Não um jardim em si, pois isso é apenas uma metáfora, mas cada um carrega em si um impulso constante de germinar, de rasgar amarras e desnudar seu pequeno corpo diante da luz, florido de urgências e continuar. De qualquer oportunidade terna como se esse gesto fosse um afago na alma, atento somente aos olhares mais compreensivos.
E são muitos, muitos, muitos jardins por aí. Ao nosso redor, na nossa casa, e dentro daqueles que vemos todos os dias, mas nem sequer sabemos o seu nome.

E  quanto de nós ainda persiste?
O mesmo e tanto mais que de nós ainda floresce!
Cada ser se torna um embrulho único de bonitezas que carrega na alma, como aprendizados. Cada ser é uma flor diferente e tantos deles se assemelham aos nossos jardins. E claro, jardins também se fundem por afinidade, por sintonia. Cada lugar se faz encantado à sua maneira. E, falando-se de jardins, os semelhantes também se atraem.

Cada ser é um fruto que amadurece. Que vez ou outra cai, apodrece padrões, descostura ramalhetes, carrega um perfume peculiar do jardim que cultiva em si.
Conhece-se a flor pelo perfume - feche os olhos mas, atente-se aos sentidos, aguce-os. Os cheiros que cada jardim carrega podemos dizer que são como impressões digitais.
E quantos deles não se reconstruíram em meio a relva, em meio a essa selva de parasitas da alma. Que com o tempo, é costume nos tornarmos imunes.
Quantos já não se acostumaram a germinar apesar do cansaço, do fardo, dos estilhaços; toda primavera por que sabem que há uma força maior e mesmo que suas sementes hibernem um tempo necessário, há de se (p)render sem pranto longo demais n'algum sopro de vida e que sem querer, já se faz latente... já que brotar, se torna inevitável.
Quantos jardins não se curvaram às ervas daninhas e quantos além não foram sufocados? Enquanto tantos mais desabrocharam por entre elas. Que só bastasse um espacinho, um vão de areia, uma fenda na rocha.

A vida se agarra às oportunidades. Se faz fecundar sobre as hostilidades. (sobre)Vive.

Cada um de nós carrega em si uma importância gigante, uma simplicidade bem quista que vai muito além das sementes que se deseja regar.
Cada ser constrói um cenário com as dores, amores, com restos de cores e pólen pra colorir da melhor forma que pode oferecer. Cada um se envenena com os próprios espinhos. Outros mais, reviram a terra, descansam dessa guerra de sempre querer lançar pulgões sem nenhum porquê. 
Somos todos jardins sobreviventes. Somos todos jardins, acima de tudo. Uns delicados, de flores miúdas, outros mais avantajados como imensas florestas. Uns comportam espécies semelhantes, outros, misturam de tudo em todo canto.

Há jardins que cantam. Como há jardins que guardam segredos.

E por sermos assim, que sejamos sempre livres para atrair o que nos floresce, o que nos frutifica.  Que todo jardim comece com um punhado de amor lançando seu feitio e que todo esse amor, se transforme em um tanto mais, em um punhado a mais e exista de alguma forma, resista da melhor forma ... pra recomeçar.
Que as esperas sejam amoras frescas, colorindo o paladar com o que a vida tem de melhor. E de sabor mais brando, quando assim precisar for.
Secar? secaremos algumas vezes, muitas vezes. Esqueceremos de (nos) recolorir, quase sempre diante dos nossos próprios olhos, porque o amanhã é uma semente que cultivamos no hoje. O que nos falta ainda é a paciência para respeitar sua hibernação e vê-la germinar.
Mas o quê todo jardim viçoso sabe, é que a poda restringe, mas recompensa com uma fortaleza bem mais comprida e cativa instalada no peito.
E que todas as flores, recém cortadas, floresçam talvez de um outro jeito. Reaprendido. Mas floresçam, refloresçam e repassem o gesto. Que cada indivíduo ornamente os seus canteiros com zelo, com olhos de recomeços. Pra além do seu próprio jardim. 

Que não nos esqueçamos nunca de que somos um milagre gigante.
No antes como no para sempre,
Sim.
│ Samara Bassi │

'Enya - Only Time'

5 comentários:

Toninho disse...

Fica dificil um comentario nesta vasta e profunda obra Sam.Voce conseguiu no criar figuras passear pela existencia e refazer os passos nesta longa jornada,onde mutamos constantemente,mas sempre carregando a essencia do jardim que nascemos.Um belissimo trabalho amiga.
Desejo que voce tenha um lindo feriadão.
Que tenha paz e que seu jardim esteja florido.
Meu carinhoso abraço de paz e luz amiga.
Bjo.

Isa E. disse...

Sam,
Você consegue tocar como ninguém a minha alma...
"o amanhã é uma semente que cultivamos hoje"
Somos todos como um jardim?
Minha querida poetisa, só consigo dizer obrigada! Obrigada por isto!

Um beijo em sua maravilhosa alma!

Evanir disse...

Venho do face para deixar meu carinho desejar uma linda semana .Um feriado abençoado.

ValCruz disse...

Há jardins que cantam. Como há jardins que guardam segredos.

<3 Beijos!!

Will disse...

Lindíssima expressão, Sam.

Tua sensibilidade toca e encanta, qual varinha de condão.


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