1.9.12

A menina dos canteiros amarelos

1.9.12
Imagem: Richard Schultz
Antes mesmo de Maio acabar, Setembro já se achega devagar trazendo no perfume do ar alguma lembrança primaveril e ensolarada. Algo com gosto de sol, de sal, um doce quente de saudade, de amor que adormece como semente guardada e velada em esperança de se reflorescer.

Ah, aquele jardim!
Aquela estrada de terra, enfeitada de tijolos amarelos que contornam cada passo e vai ao longe, onde aqueles olhos se perdem no horizonte... Como se arco-íris fosse carona garantida de volta pro lar.
Fica um cheiro de fim de tarde pueril, depois da chuva, onde os abraços tomam a forma de cabeça repousada no colo e palma de mão desalinhando fios e ornando pensamentos, como quem tece carinhos pra nunca se fazer esquecer. E ali, naquele mesmo lugar um passarinho toma banho numa poça d’água.

Ah menina desse sorriso desbotado, colha ramos lá naquele seu jardim e faça um buquê!
Lá naquele lugar onde os passos vestidos de uma sandália e um chinelo azul com branco já soaram leves e sutis como raio de sol que te colore a pele gentilmente e te enrubesce os olhos de um calor tão seu, tão assim, por alguém.

Vá menina! Pinte teus lábios com pólen das flores.

Porque Agosto está aí bem perto! E quando vem, traz menos frio e mais vento no rosto, ar nos pulmões, junto com mais algumas rugas.
E aquele amarelo de sol, talvez girassol, talvez colibri reinventado de uma aquarela nova que gira um carrossel de sonhos no telhado do teu peito onde esse amor faz casa, possa enfim te trazer de volta ao encontro daquele som encantado que canta baixinho no seu ouvido e ri feito criança feliz, uma risada transparente - Um convite pra correr pela grama e comer algodão-doce, nem rosa, nem azul. Um doce amarelo como nuvem açucarada de pôr-do-sol.
E assim, quando outros canteiros florirem na próxima primavera, aquele passarinho que canta tuas manhãs visite a flor desse teu sorriso amanhecido e o espaço dos abraços amigos e antes, amantes, retome o que ficou guardado como semente que dorme no inverno, entre um florescer e outro.

Que se floresça 1, 2, 3, 4,5... Seis!

É outono ainda menina...
Mas o caminhar de passos e o juntar das mãos por canteiros e estradas amarelas, verdes, azuis, vermelhas com a simplicidade de viver e ser vivida, são sementes que a menina dos canteiros amarelos cultiva no seu jardim, todos os dias.

Ahhh, a menina sabe disso! Que quando acontece, é preciso acreditar no que se carrega no peito em qualquer estação. Ela sente!
E sem deixar de querer, de desejar, de sonhar, deixa a vida e o caminho do sol que a acompanha levá-la, já que o sentir independe das borboletas e dos colibris visitarem o seu jardim ou não.
A menina é mulher! E o seu sorriso existe, mas ultrapassa as cercas dos seus canteiros amarelos que, de tão imenso que é, faz lar em outros olhos que sorriem um canteiro de sol no simples existir do homem passarinho, que também carrega olhar de menino e é tão criança quanto ela.
E isso, já basta pra se sorrir sempre... antes, durante e após toda primavera.
Samara Bassi

2 comentários:

Noslen ed azuos disse...

Ah quantas vontades de verdes com sabor de vermelhos q meus azuis poéticos amarelaram nas laranjas, tudo muito belo Samara! Bjs

André disse...

Querida amiga, que bom poder estar a ler novamente suas belas crônicas, plenas de imagens de uma outra percepção, bem mais inocente, quase mágica... Suas palavras se desenham na minha imaginação como as ilustrações de um livro de histórias infantis, são como lápis de cor que saltam de uma caixa e saem colorindo outonos, primaveras, colibrís, sorrisos...

Lindo texto, minha amiga Samara, de uma delicadeza e um lirismo que me tocam, particularmente. Parabéns!

Perdoe-me a ausência, no verão eu costumo sempre viajar e pouco venho às letras. Cheguei ontem à noite de uma estada de 10 dias nas montanhas, longe do mundo e do computador. *rs Tenho publicado de forma automática no meu blog, os textos já foram escritos há semanas antes.

No entanto, aprecio bastante as suas visitas e suas mensagens de carinho, de apreço. Obrigado, minha amiga, eu também, sempre que puder, estarei vindo aqui para saborear os seus belos e tão expressivos textos.

Um grande abraço, Samara, tenha muitas inspirações.

André

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