19.8.12

Sonho de passarinho

19.8.12
"... porque é na liberdade que me sustento
                   e é só nela que me faço (c)asa." [Samara Bassi]

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Era ali, na mão dela, que os passarinhos pousavam para se alimentar. E que farra eles faziam, batendo asas para manter o equilíbrio e cantando sem medida. Outras pessoas, próximas à menina, olhavam abismados. Como ela conseguia aquilo? Bastava estender a mão e eles vinham sempre. Ela era alguma encantadora de pássaros?

A menina aparecera naquela pequena cidade num dia de sol, num mês qualquer em que os pássaros apareceram aos bandos. Ela veio sozinha e, ao que parecia, não tinha família ou, ao menos, quem a provesse. Andava pelas praças e ganhava seu sustento pedindo a um ou outro. Seu semblante, logo no começo, era alegre. Sorria para tudo o que via, e fazia festa sempre que conhecia ou provava algo novo. Não demorou para alguém notá-la e, o que foi ainda melhor, adotá-la. E assim, a menina trocou as ruas por uma casa aconchegante. Ganhou também uma família, estudos e um cachorro.

Roupas novas e brinquedos ela tinha aos montes, mas algo parecia ser tirado dela a cada novo dia. Da alegria do começo, restaram poucos sorrisos. Seu olhar já não tinha mais aquela magia de antes, deixando para poucos momentos o entusiasmo em viver.
Nas quartas-feiras ela frequentava as aulas de canto, e que fantásticas eram aquelas poucas horas. Ali sim ela se soltava, esbaldando-se e atraindo todos para assisti-la.
Não existia viva alma que não interrompesse seus afazeres para assistir ao espetáculo que ela proporcionava. Diziam que ela tinha alma de passarinho. E quer saber? Até os próprios passarinhos pousavam na janela para aplaudi-la.

Certa feita, e preocupados com a melancolia que a menina carregava nos olhos, os pais adotivos procuraram um médico para tratá-la. Um psicólogo. E não demorou muito para que ele chegasse ao fundo do problema. E era tão simples. Ela queria ser passarinho. Ela sonhava com isso. Em algumas seções da análise, ela sonhou e,
enquanto dormia, retratou paisagens que somente um pássaro poderia descrever.
Contou de vôos e aventuras, viagens, bandos de pássaros dormindo em árvores e fazendo farras logo pela manhã, do quebrar da casca do ovo ao nascer e dor de não mais voar. Enfim, a menina tinha um sonho. Não queria apenas voar, mas sim ser um pequeno pássaro.

Com o tempo, ela cresceu e entristeceu ainda mais. Só existia alegria quando algum daqueles pequenos alados sentava em seu ombro. Não interessava por onde ela andasse, eles, os pássaros, sempre estavam por perto, comboiando ou voando bem perto.

Quando as tardes se aproximavam, e ela sentia a aragem mais fresca, era hora de correr para a sacada de seu quarto. Lá, ela olhava para o céu e implorava à Deus para dar-lhe asas. Lágrimas vertiam de seus olhos nesse instante, e a vontade de saltar daquele lugar gritava em seu peito. Numa oportunidade, se o pai adotivo não a segura pelo braço, ela teria pulado. A agonia, doravante, tomou a família, que sem ter o que fazer, acolheram a opinião do médico. A menina passou a morar numa clínica de recuperação de loucos.

A tentativa de curá-la, ou de dar-lhe mais conforto, partia de todos, mas mal sabiam eles que só estavam dando mais asas aos sonhos que ela carregava. Lá, na clínica, ela conheceu alguém que a ouviu, e que diante de um pensamento insano e mais livre, a encorajou: pule da torre mais alta e voe.

Os meses passaram, até que, finalmente, ela voltou para casa. Não estava curada, mas havia uma melhora aparente. Como agradecimento, a família foi até a igreja local, e ela, como sempre, presentearia a todos com seu belo canto. Deixaram-na ensaiando numa das salas e foram para o culto, mas ao retornar para buscá-la, só o que encontraram foi uma sala vazia. Ela? Ela estava no alto da torre da igreja, pronta para saltar.

O alvoroço foi geral, e quando o pai chegou até ela, na torre, só o que viu foi um assovio melódico enquanto ela saltava. Ele correu até o parapeito, e ao olhar para baixo, notou o povo perplexo. Ela, ao cair, virou passarinho e bateu asas para o infinito. Ninguém mais a viu, e até hoje essa história é contada por todos.

Numa árvore alta, nos arredores daquela cidade, um passarinho repousa tranquilo
num fim de tarde. Ele sonha. Quer ser gente. Mas Deus, em seu sonho, diz a ele:

- CERTA VEZ, REALIZEI O SONHO DE UMA PASSARINHA QUE QUERIA SER GENTE. E ELA NÃO GOSTOU NADA DO QUE VIVEU, E VOLTOU A SER PASSARINHA. CONTINUE COM TEU SONHO, PASSARINHO. AS ASAS SÃO UM PRÊMIO A QUEM SABE SER LIVRE, E NÃO PARA AQUELES QUE QUEREM APENAS VOAR.
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Nota:Este conto foi um presente maravilhoso ao meu coração. Escrito pelo nosso admirável Marcio JR, foi muito mais que um afago em minha alma. E creio que não deixará de ser na sua também, meu querido leitor. E, coração agradece meu amigo de ouro, sempre pelos sorrisos que semeia por onde passa.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Marcio JR, visitem:

Crônicas de areia


                                                  │Samara Bassi                                                              

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