22.7.12

Fecunda

22.7.12
Imagem: Jamie Grill
Ainda tenho fresco o teu riso na memória. 
E enquanto olhava as minhas mãos pequenas e repletas de beijos guardados por entre os dedos desse sábado chuvoso, você me veio naquela pintura diante dos olhos e colorindo minha tela em branco, emoldurando meus versos e inversos desse mundo que não me entende, que não me atende e não compreende que a gente tem mesmo é que carregar uma brisa nos lábios quando as costas se despedem com pedras e cargas demais de outras vidas.
Eu, nessa vidinha pacata de trabalho e faculdade, faço casa por entre as horas que espero você me acenar da esquina, vindo correndo com teus livros debaixo do braço e um abraço escancarado.
Lembrei de quantas e de todas as vezes em que você me pediu calma e por repetições infinitas, se debruçou na mesa do trabalho para respirar mais fundo um resto de ar que teus pulmões deixaram escapar pelas janelas. Sucumbi assim, num rascunho disperso de um choro seu, que engoli o meu só pra dividir o sorriso que você me trouxe, sempre misturado às suas trapalhices em todas as vezes que me paralisa diante da porta da minha cozinha, as 7:30 horas, me fazendo queimar todas as minhas torradas, como se eu me importasse realmente com elas.
Ah, querido. Sabes como ninguém me (re)ter em todos os (teus) sentidos. E não se iluda achando que a curva desconhecida daquela alameda transitória entre  a espera na rodoviária e a próxima estação de metrô, é apenas um caminho cortado entre os teus dias e os meus. 
Não.
Não é de hoje que te falo das vontades que meu coração cultiva.
Que sei das tuas risadas quando faço cócegas na sua vida.
Que sei bem dessa felicidade que mora ao lado da tua cabeceira e mais, de todas as tuas vontades e taras, e de todas as tuas angústias vestidas de "tudo bem", eu também sei. 
Ninguém precisa me ensinar a te ler. 


[Mas, coisa tão bonita essa de se enriquecer a vida com pequenezas e que só os nossos olhos enxergam algo a mais.]


E, não sei se sabe, mas não era tão tarde por aqui, quando te contei do sonho que tive  e  a sensação  causada, se espalhou naquela adormecida vontade  que quase sempre me esquivei.  E não quero saber se pode ser algo aparentemente longe e irreal das circunstâncias,  não quero mesmo pensar nisso. Só quero agora me atrelar ao balancê  que se instalou aqui, fazendo festa nesse meu peito falho. Dessa felicidade tamanha e dessa tanta boniteza que você fecundou em mim, me deixando prestes a pegar o primeiro voo, nem que fosse  o último só pra te contar de perto todas as vezes que senti quietinha, essa semente me morar inteira num ventre de aguardar recomeços e florir inteira contigo e junto de ti, as nossas histórias. Sim, porque numa só história cabe tantas outras. Assim como uma só vida se entrelaça à tantas mais. 
É assim que se cultiva, que se cuida de cada uma dessas vi(n)das.
E foi naquele eco do teu riso quando te confessei  desse tanto sentir e eu, eu só quero agora me espalhar inteira nessa possibilidade de uma batucada  dupla de Tum Tá, de fazer casa nesse ventre maduro e habitado, mesmo sem pretensão alguma de acontecer. Só abrigar por baixo da pele, essa parte fecunda de ti. Um encontro germinado de vindas, de voltas e prestes a caber no tempo, todas as certezas lançadas num  unir  de  nossas partes, para criar de passo em passo um sonho todo nosso, e por inteiro. 
Porque contigo, nada, nada sabe ser pela metade. Nem pode.

                                                   │Samara Bassi

7 comentários:

Karine disse...

Lindo.
Só isso!

Um abraço.

José Carlos Brandão disse...

"Ninguém precisa me ensinar a te ler."

Leitura com o coração, com a alma - da vida, do outro.

Beijo, Sam.

ValCruz disse...

Ah, Sam! Você é um talento. Preciosa Criatura!! Amo. Tu sabes disso... Mas não custa nada repetir né! rs. Texto gostoso de se ler... Adorei!

Abraços e meu carinho de sempre.

Filha do Rei disse...

Sam, que lindo!!!!
Cada palavra flui, cada palavra tem vida.
Bjss

Mim disse...

AMEI!! :)

Gostei desta superfície e sigo-a para onde for.

Isa E. disse...

Sam,
Quanta poesia existe em cada frase que você escreve! E que ritmo perfeito!
Essa força que nos fecunda, essa semente de possibilidades, beleza e sonhos, semente de caminho único que nasce de outros dois, é capaz de nos tornar inteiros, nós, que por muitas vezes, nos sentimos pela metade...
É um dos textos mais bonitos que li sobre o amor. Gostei muito.

Muitos beijos!

Anne Lieri disse...

Samara,que texto maravilhoso!Realmente uma emoção a cada parágrafo nesse encontro fecundo!Adorei te ler!Bjs e meu carinho,

Copyright - Quintal de Om © 2012 - 2017. All Rights Reserved to Samara Bassi.