22.1.19

Secular

22.1.19
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Algo me lembra. Me remete a todas as estradas que uma vez passei, ainda que não me recorde disso. Eu sei, é confuso. Mas você deve entender. Deve entender porque há nas suas tanto quanto nas minhas células, uma memória que não se corrompe com o tempo das traças e nem das ferrugens. 
Falo desse aterramento em si mesmo e das comparações que atravessam nossos olhos por anos e séculos. Das nossas maestrias de driblar dragões internos e ainda assim, erguer montanhas e vãos. Nada é em vão quando se reconecta em nós, um lugar qualquer mas que não cabe em qualquer canto e não canta qualquer som. Há em nós, um tom certo de ecoar palavras e manifestações. Há algo vibrante e celular, biológico e ainda assim ser, tão extraordinário. 
Não há ordens e os ontens, não se colidem mais. 

Eu, eu carrego e distribuo  a minha história com os pés no chão, empoeirados de voltas e idas que giram e se assentam, sem tantas moradas. Sem tantas marcas vistas, a gente tem mesmo é que não se importar e soltar. 
Limpar as memórias que compartilhamos com os nossos ancestrais não nos tornam mais ou menos, mas nos liberta de bagagens pesadas e ingratidões mal decompostas. Nos liberta das ações e reações que carregamos sem nos dar conta e do quanto que atravessamos portas, nos espremendo para passá-las. 

Dentro, há um ponto conhecido por qualquer um que exista e seja capaz de sentir o elo. Todos os elos são séculos e séculos de pertencimento, tantos sem conexão. Todos nós guardamos e levamos conosco, esse lugar aparentemente desconhecido e ainda assim tão familiar. Não estou falando de família, mas de elos, necessariamente de qualquer natureza. Eu falo desse aterramento tão similar quando alguém descansa um gesto em seu peito aberto. Um passe, um passado que acalma e compassa todos os nossos golpes de ar. Compreendemos tudo e abrimos, de via, nosso mediastino trancado e áspero, de reconectar. 

Você conhece o caminho e a sensação: é uma morte breve e que traz muito movimento na sua inércia com que acontece. Ela ressignifica o gesto e as gratidões transformam o que a gente aprendeu, sem mestres mas sabendo dos passos, intuitivamente.

Eu sinto o espaço deslocado no éter. Todas as minhas memórias guardam essa etereacidade peculiar de me tornar eu, em qualquer respiro. E não me engano porque sei que toda nuvem e sopro retornam e tornam-se terra -  a matéria em si, vestida de uma nova emanação.

Terra é um caminho gestacional de toda memória que já nasceu e morreu. Que já doeu e doou a nós, todas as travessias e histórias cabíveis de nos formar. De nos transformar através dos séculos, sem que se tivesse perdido, também.
Todas as mudanças não ocupam lugares, de fato, só tempo. E tempo, ocupa todo e qualquer lugar.
O vão e o preencher, meu bem, é tão e somente um consentimento seu.
│Samara Bassi│


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